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Megaeventos colocam o trânsito do Rio em xeque

Feriado na Rio+20 contorna problema, mas especialistas cobram soluções

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Enfrentar o trânsito do Rio no horário de rush é um exercício de paciência.  Com as ruas completamente saturadas em diversas regiões, motoristas não têm para onde correr. Mirando os megaeventos que o estado irá receber, grandes investimentos em infraestrutura de transporte vêm sendo feitos e outros projetos continuam no papel. No entanto, a estimativa de que cerca de 600 mil visitantes cheguem ao Rio durante a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, e nada menos que 2 milhões devem se reunir na cidade durante a Jornada Mundial da Juventude - evento católico marcado para julho de 2013 -, coloca em xeque a capacidade do atual sistema viário para absorver toda a nova demanda. 

Já neste ano, o Rio recebe o primeiro grande evento internacional, a Rio+20, que acontece entre os dias 13 e 22 de junho. A Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou a presença de 135 chefes de Estado na cidade, que receberá em torno de 35 mil pessoas por dia de evento. A conferência serve como amostra de como a cidade irá se comportar durante um grande evento internacional.

Enquanto as obras não ficam prontas, a solução criada pelo prefeito Eduardo Paes é criar um feriadão na cidade nos últimos três dias da Rio+20. Dessa forma a cidade fica mais vazia e os chefes de estado poderão se locomover sem enfrentar trânsito.

“Esse feriado, se vier a acontecer,  será a constatação de que a realidade atual não é boa. Se estão interferindo é porque há uma ameaça de pagarmos mico com as autoridades e delegações engarrafadas” afirma o professor de Engenharia de Transportes da Uerj, José de Oliveira Guerra.

Guerra acredita que, para 2016, o Rio deve experimentar uma melhoria considerável, mas não terá resolvido todos os problemas de trânsito,  pois os atuais investimentos não cobrem  toda a cidade. Ele explica que as melhorias no sistema viário não resolvem o problema a longo prazo porque o inevitável aumento da frota de veículos faz com que rapidamente o que foi feito seja novamente saturado. Guerra afirma que a solução para o trânsito está diretamente ligada a melhorias nos transportes públicos:

“A melhora não decorre do investimento no sistema viário, e sim no investimento em transporte público, único  capaz de desestimular o uso do carro. O transporte público está tendo preferência e essa é a grande senha”.

O engenheiro lembra que o problema nos transportes só é resolvido através de uma política contínua de investimentos, e cita Curitiba como exemplo.

“Curitiba investiu durante algumas décadas em transportes e até hoje é uma das cidades que funciona melhor nessa área”, diz. “Temos que fazer com que as políticas nesse setor sejam continuadas, independentemente de mandatos de futuros prefeitos“, conclui.

Um dos maiores especialistas em transportes do Rio, o engenheiro Fernando Mac Dowell entende que a Zona Oeste é o ponto natural de expansão do Rio, mas crítica o sistema de BRTs lá, pois não vê demanda suficiente na região. “Não sou contra, mas acho que deveria ser feito no local certo, onde a demanda é compatível com a capacidade”.

Mac Dowell defende o sistema de metrô como a melhor solução para os problemas de trânsito. O engenheiro explica que o sistema deveria voltar a funcionar como previa o projeto original, sem os atuais cruzamentos entre a Linha 1 e a Linha 2.

No projeto original, a Linha 1 funcionaria com trens de seis carros operando em intervalos de 90 segundos, e a Linha 2 operaria com oito carros a cada 100 segundos. Como existe o cruzamento com a Linha 1, a Linha 2 tem que trabalhar com no máximo seis carros e o intervalo subiu para quatro minutos. Para acabar com esse problema, Mac Dowell explica que a Linha 2 deveria ir direto até o Centro do Rio, sem a necessidade de cruzamento com a Linha 1.

“A Linha 2 funciona com a quarta parte da capacidade original por causa do cruzamento. Como atravessa a região de maior população, seria muito importante o trecho ligando a Linha 2 à estação da Carioca”.

Outro projeto em evidência é o Porto Maravilha, que visa revitalizar a Zona Portuária, uma área hoje em segundo plano, a exemplo de outras metrópoles internacionais como Sydney e Buenos Aires. O projeto implica, além da reurbanização, na remoção do elevado da perimetral, uma das principais vias de escoamento do tráfego da Ponte Rio-Niterói.

A demolição da Perimetral tem sido alvo de críticas e preocupação dos motoristas que utilizam a via. Pelo projeto, o tráfego será desviado para um novo sistema de túnel com 4km de extensão.

“Acho uma pena eliminar a perimetral. O túnel pode substituir a via mas não terá a mesma capacidade das duas estradas que sumirão. Mas é importante que o porto seja preservado, é um dos mais importantes do país", conclui o engenheiro.

Verba do PAC

Esta semana, a presidente Dilma Rousseff anunciou a liberação de verbas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a área de mobilidade urbana nas grandes cidades. Ela defendeu a necessidade de ampliar os investimentos na construção de metrôs para dar mais agilidade e conforto aos usuários do transporte urbano. O total anunciado chegou a R$ 32 bilhões, sendo que cerca de R$ 4 bi serão destinados a obras no Rio. Foram selecionadas a construção da Linha 3 do Metrô para ligar os municípios de São Gonçalo e Niterói, obras de dois corredores expressos em Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio, e a construção de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na região portuária da cidade do Rio.

Obras e projetos no caminho

Para atender à Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, a prefeitura anunciou diversas projetos na área de transportes. Os principais são a implantação de quatro linhas no sistema BRT (Transcarioca, Transoeste, Transolímpica e Transbrasil), a construção de um Veiculo Leve sobre Trilhos (VLT) no Centro, o desenvolvimento da Zona Portuária e a Linha 4 do metrô, que ligará Botafogo à Barra da Tijuca.

A proposta do BRT (Bus Rapid Transit) é criar um corredor expresso, exclusivo para ônibus, aumentando a rapidez e o conforto dos passageiros. No Rio de Janeiro os BRTs vão ajudar a descentralizar a presença dos ônibus nas ruas já que as vias operam de maneira tangente aos centros. 

A Transcarioca terá 39km de extensão e vai ligar a Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional Tom Jobim. A Transolímpica, com 26km, cria um corredor vindo da Avenida Brasil, na altura de Deodoro, até a Barra.  A Transoeste ligará Campo Grande à Barra da Tijuca e também inclui a construção de um túnel ligando a Barra de Guaratiba ao Recreio dos Bandeirantes. O projeto da Transbrasil, via expressa para ônibus, virá de Deodoro até o Centro da cidade passando por cinco terminais.  O trajeto terá conexões com a Transcarioca e a Transolimpica e vai agilizar o acesso de visitantes oriundos da Via Dutra e rodovia Washington Luiz, principais acessos rodoviários à cidade.

Apuração: Renan de Almeida