Um senador propôs esta semana que não
constasse do juramento de praxe prestado no ato de posse, o compromisso com a
ética. Diante da surpresa geral provocada pelo inusitado gesto, tentou
Justificar sua atitude com o argumento de que nesse campo, o terreno é volátil,
tudo é relativo. Afinal, quanto à ética, considera ele, cada indivíduo e
sociedade têm a sua, adequada ao tempo e lugar.
Um governante brasileiro, em tempos
recentes, também escorregou na matéria. Ao se explicar sobre determinada ação,
apelou para um clássico da sociologia numa referência à diferença que deve ser
estabelecida entre ética dos governantes e a ética dos indivíduos. Não convenceu
muito, mas seguiu em frente.
Bem antes, há cerca de 500 anos, um
diplomata florentino definiu que para exercer e manter um bom governo, o
príncipe e chefe de estado deve se colocar à distância de uma ética que atenda
à consciência moral do cidadão do povo. Uma posição que levada ao extremo nos
atos de governo, advertia ele, certamente conduziria o estado à derrocada.
Se o conceito de ética comporta uma
discussão de tal monta, ao longo da história, melhor atentar ao célebre e
inesquecível bispo Dom Hélder Câmara. Para ele, a coisa toda se resumia a um
enunciado muito simples, capaz de ser entendido por qualquer pessoa. Ética,
dizia, é vergonha na cara. Penso como Dom Hélder, e acredito que quem saiu às
ruas nas manifestações de junho, ou ficou em casa, mas apoia e entende as
razões da revolta, tem o mesmo sentimento. Quanto ao senador, ele se deu conta
de onde estava se metendo e, no dia seguinte, mudou de ideia, voltou atrás,
dando o dito pelo não dito.
*Pedro Simon é senador da República pelo PMDB-RS.