Maior partido da base aliada do governo e, portanto, o que mais tem poder para decidir sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff no Congresso Nacional, o PMDB está rachado. O vice-presidente da República e presidente nacional do PMDB, Michel Temer, ameaça o Planalto de retaliação, caso haja interferência no partido. Aliado do governo, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), tenta articular uma saída alternativa à ruptura de mandato.
No centro do debate está o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), destituído esta semana da liderança do partido na Câmara. Principal beneficiário da reforma administrativa e ministerial que o governo executou no final de outubro, o peemedebista fluminense se aproximou da presidente Dilma na mesma proporção em que se afastou do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Na última terça-feira (8), Picciani ensaiou ceder os oito assentos do PMDB na Comissão Especial do impeachment apenas aos parlamentares com posicionamento claro pelo arquivamento do pedido. Desagradou o partido e perdeu o posto.
Na quarta-feira (9), em jantar na casa do líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), Picciani e Renan conversaram sobre os próximos passos. A interlocutores, Renan relatou trechos do conteúdo da conversa: “O Michel chamou os deputados, um a um. Ele disse para todos os deputados o seguinte: 'Eu vou assumir. Isso não vai continuar. Você vai ficar comigo ou com o Picciani?'".
Ainda na quarta, um dos pontos da reunião a portas fechadas entre Dilma e Temer foi o pedido para que a chefe do Executivo não intercedesse por Picciani, pertencente ao núcleo fluminense do PMDB, uma das principais bases do governo. Nesta sexta-feira (11), a presidente Dilma disse, em entrevista coletiva, que o Planalto não interfere nem no PT, nem no PR, nem no PMDB.
Renan e Picciani fizeram uma reunião sigilosa para avaliar a evolução da estratégia que pretende devolver a liderança ao deputado fluminense. Vários governadores foram acionados para tirar de Brasília suplentes que assinaram a lista contra Picciani e ocupam cadeiras na Câmara pelo fato de os titulares estarem em secretarias estaduais e municipais.
É o caso dos peemedebistas do Rio, deputados Pedro Paulo, Marco Antonio Cabral e Wilson Beserra, hoje em secretarias locais e na administração dos estados e municípios, mas eleitos em 2014 para a Câmara Federal. A expectativa é que estes parlamentares deixem seus cargos e retornem à Brasília para ajudar na recondução de Picciani.
A tentativa de reconduzir Leonardo Picciani à liderança do PMDB pode ter consequências mais graves tanto no partido quanto para o governo: estuda-se a expulsão do deputado do partido, o que provocaria um problema no PMDB do Rio de Janeiro, um dos diretórios mais fortes do país, e abalaria o apoio a Dilma. Outra medida mais radical já vem sendo cogitada, caso fique comprovada a interferência do Planalto: antecipar a convenção nacional do PMDB, que aconteceria em março do ano que vem, e anunciar a ruptura com o governo, deixando-o sem base para barrar o pedido de impeachment. Neste caso, o governo teria que se reconstituir e propor uma nova coalizão.