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'Não é o fim', diz irmão de Celso Daniel após mais 3 condenações

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Bruno Daniel, irmão do político Celso Daniel (PT), assassinado em janeiro de 2002, amorteceu a comemoração pela sentença que condenou, nesta quinta-feira, mais três acusados de envolvimento na morte do então prefeito de Santo André (SP). Para ele, foi vencida uma "etapa importante", mas a tarefa da Justiça ainda não terminou. "Resta ainda uma decisão sobre todos os presos e sobre todos os processos que envolvem as denúncias de corrupção. Então, sim, hoje é uma etapa muito importante, e estamos satisfeitos, mas não é o fim", disse.

O irmão de Celso Daniel negou que a decisão traga tranquilidade. "A família só vai poder dormir tranquila quando tudo envolvendo a morte do meu irmão for esclarecido", afirmou. O tom comedido foi repetido pelo promotor Márcio Augusto Friggi de Carvalho, que lamentou não terem sido julgados dois réus, cujos advogados abandonaram o plenário alegando pouco tempo para apresentar seus argumentos. "Estou muito satisfeito com o resultado de hoje. É o resultado de um trabalho de muitos anos, feito por toda a equipe do Ministério Público, mas ainda não terminou."

Nesta noite, a Justiça de São Paulo condenou Ivan Rodrigues da Silva, o Monstro, a 24 anos de prisão; Rodolfo Rodrigo dos Santos Oliveira, Bozinho, a 18 anos de prisão; e José Edison da Silva a 20 anos de prisão. Todos já cumprem pena em regime fechado por outros crimes.

Durante o julgamento, Bruno Daniel disse que parte do PT tentou acobertar o crime. Segundo ele, a família não tem dúvidas de que o assassinato teve "motivação política", conforme argumentou a acusação. "A família não tem nenhuma dúvida de que foi um crime com implicações políticas, ligada (...) à existência de esquemas de financiamento de campanha irregular. Aliás, como admitiu o (ex-)presidente Lula, de que todos os partidos fazem caixa 2, inclusive o dele. Infelizmente é a maneira pela qual se faz política aqui no País", afirmou.

De acordo com a Promotoria, o político foi morto após descobrir que pivôs de um esquema de corrupção na administração municipal, montado para financiar campanhas do PT, enriqueciam ilicitamente. "Nós tínhamos amigos no PT, e tivemos na verdade que fazer dois lutos: o luto do assassinato do meu irmão e o luto de um conjunto de companheiros que agiram o tempo inteiro no sentido de acobertar o crime", afirmou Bruno, citando o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. "Todas as ações do PT no sentido de defender a tese de crime comum, sem nenhuma consistência... É lamentável. (...) Esperamos que o caso sirva como elemento de reflexão para alterar a realidade da qual nós vivemos", concluiu.

Hoje, o diretório do PT em Santo André disse que o partido é o principal interessado em esclarecer os fatos. A legenda sempre rebateu e criticou qualquer ligação com o caso.

A morte de Celso Daniel

Então prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT) foi sequestrado em 18 de janeiro de 2002, quando saía de um jantar. O empresário e amigo Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, estava no carro com ele quando foi rendido. O político foi levado para um cativeiro na favela Pantanal, em Diadema (Grande ABC), e, depois, para uma chácara em Juquitiba, a 78 km de São Paulo, sendo assassinado a tiros dois dias depois. Na época, o inquérito policial concluiu que Celso Daniel teria sido sequestrado por engano e acabou morto por uma confusão nas ordens do chefe da quadrilha. Mas a família solicitou a reabertura das investigações ao Ministério Público.

As novas averiguações apontaram que a morte de Celso Daniel foi premeditada. As contradições entre as declarações de Sombra e as perícias feitas pela polícia lançaram suspeitas sobre o amigo do então prefeito. Ele havia dito que houve problemas nas travas elétricas do carro em que os dois estavam, que houve tiroteio com os bandidos e que o carro morreu. Mas a perícia da polícia desmentiu todas as alegações.

O MP denunciou sete pessoas como executoras do crime, sendo que Sombra foi apontado como o mandante do assassinato. Ele foi denunciado por homicídio triplamente qualificado - por ter contratado os assassinos, pela abordagem ter impedido a defesa da vítima e porque o crime garantiria a execução de outros. De acordo com o MP, o empresário fazia parte de um esquema de corrupção na prefeitura de Santo André que recebia propina de empresas de transporte, mas Celso Daniel teria tomado providências para acabar com a fraude, o que motivou a morte. Ele nega a acusação.

A Justiça decidiu levar todos os acusados a júri popular pela prática de homicídio qualificado (por motivo torpe, mediante paga ou promessa de recompensa e por impossibilitar a defesa da vítima), cuja pena máxima é de 30 anos de reclusão. Em novembro de 2010 aconteceu a primeira condenação do caso: Marcos Roberto Bispo dos Santos pegou 18 anos de prisão em regime fechado. Em maio de 2012, Ivan Rodrigues da Silva, o Monstro, foi condenado a 24 anos de prisão; Rodolfo Rodrigo dos Santos Oliveira, Bozinho, pegou 18 anos de prisão; e José Edison da Silva foi sentenciado a 20 anos de prisão.