Há exatos dois anos, o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda era preso por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A detenção da autoridade maior da capital federal - esta foi a primeira vez que um governador foi preso no Brasil - era apenas o estopim para uma crise no governo local que duraria até o fim de 2010. Durante dez meses, Brasília viveu sob o fantasma da intervenção federal, teve três governadores e, até hoje, sua política sofre com os reflexos daquela que foi a maior crise já vivida pela capital.
Às 17h do dia 11 de fevereiro de 2010, o então governador deixou a residência oficial de Águas Claras, no Distrito Federal, em um comboio de seis carros, rumo à Superintendência da Polícia Federal, onde ficaria preso pelos 60 dias seguintes. Arruda foi acusado de tentar subornar o jornalista Edmilson Edson dos Santos, o Sombra. Ele seria testemunha do esquema que ficou conhecido como "mensalão do DEM", partido ao qual Arruda era filiado à época das denúncias.
O escândalo começou em 26 de novembro de 2009, quando a Polícia Federal deflagrou a operação Caixa de Pandora e cumpriu 16 mandados de busca e apreensão, incluindo a residência oficial do governador do DF. O inquérito contém a transcrição de um vídeo em que Arruda e um assessor conversam sobre o repasse de verbas para aliados.
O vídeo foi feito pelo ex-secretário de Relações Institucionais do Governo do DF Durval Barbosa, que aceitou colaborar com as investigações em troca de penas abrandadas nos 37 processos aos quais responde na Justiça. No inquérito aparecem, ainda, o ex-vice-governador Paulo Octávio, secretários de governo e 10 dos 24 deputados distritais do DF. Desses, três também aparecem em vídeos gravados por Barbosa: Eurides Brito, colocando maços de dinheiro na bolsa; Leonardo Prudente, pondo o dinheiro nas meias; e Júnior Brunelli, o "deputado da oração", pois, na gravação, ele agradece a Deus pelo dinheiro recebido.
Dois anos depois, os protagonistas do caso sumiram das páginas dos jornais. A reportagem do Terra tentou entrevistar Arruda, mas seu advogado, Nélio Machado, aconselhou o ex-governador a ficar recluso. "Achamos que é um momento delicado, que há pessoas que precisam se explicar antes dele. Quando for o momento oportuno, ele vai falar", disse.
O ex-vice-governador Paulo Octávio, que chegou a assumir o governo do DF por 12 dias quando Arruda foi preso, preferiu se afastar da política e voltar aos negócios. Octávio é dono de inúmeros imóveis em Brasília e possui uma construtora e incorporadora. Após o episódio, ele pediu desfiliação do DEM, partido pelo qual venceu as eleições de 2006. Já o pivô do escândalo, Durval Barbosa, hoje vive recluso sob o programa de proteção a testemunhas.
Para o advogado especialista em direito eleitoral Flávio Brito, que acompanhou o caso à época, o episódio abriu um precedente perigoso. "As gravações foram boas no início, mas que se tornou uma verdadeira insegurança. Se criou em Brasília uma mania de tudo se gravar", disse. O advogado se refere ao caso mais recente de uma autoridade do Distrito Federal que foi derrubada por gravações.
Na semana passada, vieram à tona vídeos em que o então diretor-geral da Polícia Civil do DF, Onofre Moraes, aparece criticando o atual governador, Agnelo Queiroz (PT), e dizendo que ele só sairia do Palácio do Buriti "dentro de um camburão". O vídeo foi feito na casa de Sombra e postado no blog do jornalista, aliado de Durval Barbosa. O ex-delegado estaria insatisfeito pela "falta de reconhecimento" do governador e com a indicação de Mailine Alvarenga para assumir a corporação.
Durante depoimento à Polícia Federal em janeiro, Durval teria acusado Onofre de oferecer R$ 150 mil de propina a Sombra para livrar o atual governo das denúncias reveladas pela operação. Após a divulgação das gravações, Onofre Moraes pediu demissão do cargo.
O advogado Flávio Brito considera "inconcebível" que vídeos como esses ainda estejam vindo à tona. "É inconcebível uma testemunha que faz acordo com Justiça ir soltando em doses homeopáticas o material que ele tem. Se ele tem provas documentais contra as pessoas que vêm praticando atos ilícitos, já deveria ter divulgado há muito tempo", afirmou.
Relembre
Após a revelação das denúncias, uma série de acontecimentos tomou a capital federal no ano de seu cinquentenário. Depois da saída de Paulo Octávio do cargo, quem assumiu o governo interinamente foi o presidente da Câmara Distrital, deputado Wilson Lima. Ele foi derrotado em uma eleição feita entre os parlamentares, que consagrou Rogério Rosso como governador-tampão até 31 de dezembro daquele ano.
Durante a prisão de Arruda na Superintendência da Polícia Civil, em Brasília, manifestantes pró e contra o ex-governador se revezavam em vigílias e protestos. Revoltados, estudantes da Universidade de Brasília invadiram por dias a Câmara Distrital do DF em forma de protesto. Após serem retirados, os manifestantes invadiram a nova sede da Câmara Distrital, que estava sendo construída, para abrigar os parlamentares. Eles foram retirados depois que a polícia cercou o prédio e mandou cortar a água e a luz.
O mensalão do DEM
O chamado mensalão do DEM é resultado das investigações da operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal. O esquema de desvio de recursos públicos envolvia empresas de tecnologia para o pagamento de propina a deputados da base aliada. Em sua defesa, Arruda afirmou na época que os recursos recebidos durante a campanha foram "regularmente registrados e contabilizados".
As investigações apontam indícios de que Arruda, assessores, deputados e empresários podem ter cometido os crimes de formação de quadrilha, peculato, corrupção passiva e ativa, fraude em licitação, crime eleitoral e crime tributário. O caso aguarda denúncia do Ministério Público Federal e tramita no STJ.