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Pag. 5 - O papa e os banqueiros

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Yallop levanta a hipótese de que a morte de Albino Luciani, o papa João Paulo I, foi um assassinato Desde a morte de João XXIII, a Igreja vem perdendo os pobres que o grande papa recuperara O VATICANO deverá publicar hoje dois documentos. O primeiro deles, um motu proprio, de acordo com a linguagem da Santa Sé, submete as atividades do Instituto para as Obras da Religião (IOR – o Banco do Vaticano) às normas bancárias da União Europeia.

Amanhã se encerra o prazo para a adesão ao convênio. Ele decidiu criar também nova autoridade financeira. Isso ocorre depois que o Banco da Itália confiscou 23 milhões de euros do IOR, ao multá-lo por práticas suspeitas.

O outro documento condenará, de modo geral, a “lavagem de dinheiro sujo”, proveniente do crime, e o “financiamento de atividades terroristas”. Com todo o respeito pelos católicos do mundo inteiro, e por considerável parcela da hierarquia da Igreja, trata-se de ato tardio.

O envolvimento do Vaticano com os sujos negócios bancários é mais do que conhecido.

O IOR, ao associar-se ao Banco Ambrosiano – instituição de crédito de Milão ligada aos homens de negócios católicos e a parte da hierarquia – já sujara as mãos da Cúria Vaticana. Segundo o jornalista britânico David Yallop, desde o papa Paulo VI, o IOR, comandado pelo arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, estava envolvido em negócios e em escusas alianças políticas com a máfia italiana. Em seu livro Em nome de Deus , Yallop levanta a assustadora teoria de que a morte de Albino Luciani, o papa João Paulo I, 33 dias depois de eleito, foi um assassinato. Na noite de 27 de setembro de 1978, de acordo com o jornalista – que cita documentos – o papa determinou ao secretário de Estado, o cardeal francês Villot, que afastasse, na manhã seguinte, Marcinkus da direção do IOR. Poucas horas depois, Albino Luciani foi encontrado morto. Como o Vaticano é um estado independente – e fechado – ninguém ficou sabendo exatamente por que e de que morreu Luciani. Horas antes, ele demonstrava extrema vitalidade, e tomara sua decisão depois de receber, de outro cardeal, Vagnozzi, dossiê sobre o IOR e seu ativo presidente ianque.

Ao eleger-se papa, Karol Wojtyla não só manteve Marcinkus, de origem polonesa, na direção dos negócios da Igreja como também o recuperou para a tarefa de seu guarda-costas, atividade que desempenhara com Montini.

O fato é que o Banco do Va ticano esteve envolvido com o Banco Ambrosiano e com a Loja P-II, um valhacouto da extrema-direita italiana, sob a direção de Licio Gelli, que contava, entre outros membros, com Sílvio Berlusconi.

Há informações de que, secretamente, a P-II continua a atuar. O principal executivo do Banco Ambrosiano, que causou um rombo de 1 bilhão e 300 milhões de dólares aos depositantes, o banqueiro Roberto Calvi, foi encontrado morto em junho de 1982, debaixo da uma ponte, em Londres. Seus assassinos foram irônicos: a ponte se chama Blackfriars, frades negros, como são conhecidos os beneditinos.

Calvi não foi o único a morrer. Outras pessoas, entre elas uma sua secretária, foram também “suicidadas”.

Ouvi, estarrecido, Lício Gelli dizer, em uma entrevista à televisão italiana, que quem quisesse saber onde estava o dinheiro do Banco Ambrosia no que fosse à Polônia. Com a ajuda da CIA, Marcinkus enviara o dinheiro a Varsóvia para financiar o Solidarinost, no prosseguimento da aliança anticomunista estabelecida pouco antes entre Wojtyla e Reagan.

Desde a morte de João XXIII, a Igreja vem perdendo, cada vez mais, os pobres do mundo, que o grande papa recuperara, e se agarra aos poderosos e a vulgares bandidos, como Gelli, que se orgulha de ser fascista, tendo participado da Guerra Civil Espanhola, do atentado de Bolonha e do assassinato de Moro. Muitos teólogos, de fora e de dentro da Igreja, estão certos de que se ela não retornar a João XXIII – e a Cristo – continuará perdendo sua autoridade e seus fiéis.

Por Mauro Santayana: [email protected]