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Domingo, 25 de Fevereiro de 2018 Fundado em 1891

País - Opinião

Quem quer o impeachment? Parecer jurídico tem mais legitimidade que o povo?

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Fernando Collor surgiu como a esperança num país devastado no governo anterior por um mar de corrupção, por uma inflação de 1.800% ao ano, pelo desemprego, por um câmbio negro de 200%. Num país com um governo doente, com uma estrutura doente. 

Ele representava a esperança de um povo sofrido, o caçador de marajás. Contudo, no governo, se transformou num pesadelo. Sequestrou o dinheiro do povo, mas a solução para a economia não veio. Foi denunciado pelo próprio irmão. O povo, cansado e desiludido, se viu traído por um governo também corrupto, e foi para as ruas. Não foi um parecer jurídico e nem um jurista que legitimou o impeachment de Collor. Quem legitimou o impeachment e quem legitima todas as revoluções num país em crise social é o povo.

As manifestações são os verdadeiros documentos que dão legitimidade jurídica ao afastamento de um presidente. Não era preciso um parecer jurídico, de um jurista, que legitimasse tecnicamente o seu afastamento. A legitimidade vinha de quem pode legitimar o afastamento de um governo eleito democraticamente pelo povo. Vinha do próprio povo.

Quem serão os que querem o afastamento de uma presidenta eleita duas vezes democraticamente, pelo sufrágio universal do voto, repetindo em cada eleição outra vitória? Na segunda vitória, os que queriam seu afastamento mas também não votaram na oposição somaram 27% dos eleitores (se abstiveram, votaram nulo ou em branco). Dilma teve 38% dos votos. Será que os 35% restantes se acham no direito de tirá-la? Para colocar quem?

A razão pela qual o impeachment se fundamentaria é o fato de ela ter pertencido ao conselho da Petrobras, que hoje enfrenta um escândalo de corrupção. Mas e os quatro outros conselheiros? O que fazer com eles? Hoje, um jornal de grande circulação estampou reportagem mostrando protesto de alunos no seu segmento empresarial, que entraram na Justiça contra cobranças abusivas de mensalidade. Sim, este conselheiro é um empresário de ensino particular, setor que somente 1% da população tem dinheiro para frequentar.

Esse é um Brasil com 200 milhões de habitantes, mas que só 70 milhões tem o privilégio de ter um plano de saúde e um ensino de qualidade. Os 130 milhões restantes entram em todas as filas, padecem de todo sofrimento, sem o privilégio do mercado, da bolsa e dos lucros dos bancos.

Agora mesmo, com o anúncio do lucro recorde do banco que apoiava a oposição, temos uma ideia da necessidade que esses senhores têm em fomentar ou tentar tirar do poder quem, em 12 anos e quatro eleições seguidas, democratizou realidades não permitindo o retorno daqueles que hoje, até num seriado de importante TV, aparecem sendo atacados pelo povo, que grita em protesto: "Empresário ladrão, seu lugar é na prisão!"

Quem vai cassar Dilma? O atual Congresso? Quem vai votar contra ou a favor do impeachment? Parlamentares envolvidos na Lava Jato, ou os 38 que enfrentam processos? O povo vai concordar? Onde estará a legitimidade?

Tags: Governo, brasil, crise, história, política

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