Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891
O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Renê Garcia Jr.


Grandes bancos, grandes negócios II

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Mais concentrado e fechado

A rentabilidade dos quatro maiores bancos brasileiros (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander) é, em média, 30% maior do que a encontrada nas instituições de médio porte do setor. Medida em relação ao Patrimônio Líquido (PL), as grandes instituições nacionais estão entre as mais bem posicionadas em um ranking global de organizações fi nanceiras com ativos superiores a US$ 100 bilhões. O Itaú lidera, está no topo da lista.

Por outro lado, embora os bancos brasileiros estejam entre os maiores do mundo, o Santander é o primeiro com presença no Brasil a aparecer em outro ranking internacional, elaborado pela Forbes, por ativos. Estava na 14º posição em 2016. Além disso, nenhum dos dez maiores do mundo tem operação de varejo por aqui. 

     

Citibank e HSBC, que fi guram entre os dez maiores no ranking da Forbes, deixaram o país no forte movimento de consolidação que aconteceu nos últimos anos. Tal movimento reproduziu uma tendência internacional, já que o aumento da regulação prudencial impôs globalmente maiores exigências de capital para todo o setor, penalizou mais as pequenas e médias instituições e favoreceu as consolidações. 

Para ficar apenas nas grandes operações: Banco do Brasil incorporou a Nossa Caixa (2010); Santander comprou o ABN Amro Bank (2011); Bradesco, o HSBC (2016); e Itaú assumiu a operação de varejo do Citibank e a fi ntech XP (2017). Sem contar na mais de uma centena de operações de compra de carteiras de crédito de bancos menores e aquelas que envolvem cooperativas, gestores de recursos e administradoras de cartões. 

A concentração não ocorre apenas no Brasil. De acordo com o ranking da Forbes, entre os 307 bancos listados, 21 respondem por 50% do volume total de ativos. 

Mesmo em países onde há um grande número de instituições bancárias, como os Estados Unidos, que possui cerca de 1250 bancos, 68% do lucro e  82% da geração de receitas com a intermediação de operações estruturadas  se concentra nas dez maiores empresas. A diferença é que a geração de crédito e a oferta de serviços bancários ainda é encontrada e estimulada pela presença de forte concorrência regional. Os bancos pequenos e médios norte-americanos são uma realidade inquestionável.

E como fica o crédito?

Com a queda na concorrência, por consequência do aumento na concentração, os demandantes de crédito (consumidores e empresas) podem ter sido prejudicados.  Como podemos observar no gráfico, o volume de crédito ofertado pelo sistema vem se retraindo ao longo dos últimos três anos. 

Além disso, de 2015 para cá, enquanto a concentração aumentava e os bancos públicos tinham sua capacidade de alavancagem reduzida, o spread bancário, que já era alto, subiu 15%, de acordo com os dados do Banco Central. Paralelamente, os prazos médios dos empréstimos diminuíram. Em um período em que a taxa Selic caiu quase pela metade, os bancos passaram a cobrar mais, emprestar menos e por menor prazo.

Outro indicador importante para a percepção de queda na oferta e acesso aos serviços pode ser visto na diminuição no número de agências bancárias. Apenas no primeiro semestre de 2017, os quatro maiores bancos fecharam 1.235, o equivalente a 7%. Sem nenhuma aquisição, Santander e Banco do Brasil, que enfrenta a crise fiscal de seu controlador, foram os que mais diminuíram: 15% e 12%, respectivamente.

Sem sinal de mudança

No ano passado, o presidente do Banco Central chegou a anunciar a edição de um decreto que diminuiria as barreiras para ingresso de instituições estrangeiras no Brasil. Há anos, o país é alvo de pressão pelo BIS (banco central dos bancos centrais) e pelo Fundo Monetário internacional (FMI), pois uma disposição legal obriga que a autorização para funcionamento seja feita pelo presidente da República. 

Enquanto isso, na Argentina, entre os dez primeiros bancos, há uma forte presença estrangeira. As sucessivas crises econômicas, a enorme recessão e a deterioração nos indicadores de risco do país ao longo dos anos 2005-2012 explicam a desestruturação do sistema fi nanceiro, que só recentemente voltou a se organizar.



Tags: coluna, garcia, jb, moeda, rene

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