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Quinta-feira, 19 de Julho de 2018 Fundado em 1891
Mirante do Rio

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Eduarda La Rocque


A riqueza de poucos beneficia todos nós?

Jornal do Brasil Eduarda La Rocque, eduarda@usinapensamento.com.br

Um mundo em que 1% da população detém 45% da riqueza, além de extremamente injusto, é insustentável, incompatível com a manutenção de regimes democráticos. Achille Mbembe em O fim da era do humanismo apresenta um cenário de guerras que infelizmente torna-se cada vez mais provável: com o crescimento das desigualdades em todo o mundo, conflitos sociais na forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais. A partir da difamação crescente de virtudes como o cuidado, a generosidade, a leitura dele é que os pobres, e não só eles, passarão a acreditar que ganhar – por qualquer meio necessário – é a coisa certa a ser feita. E então virão novos impulsos separatistas, a construção de mais muros, a militarização de mais fronteiras, formas mortais de policiamento, guerras mais assimétricas, alianças quebradas e inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Apesar de a desigualdade planetária entre economias nacionais, medida em renda per capita média, continuar a encolher, a distância entre os mais ricos globais e os mais pobres globais continua a crescer, e os diferenciais de renda dentro dos países continuam a se expandir. No Brasil, os 10% mais ricos detêm 55% da riqueza, num movimento crescente. Nos Estados Unidos esse percentual é de 47% e na França de 33%. Temos de repensar nossos valores, metas, modelos de organização e o processo de acumulação capitalista que gerou a grande armadilha social, o moto-contínuo da desigualdade, tal como definido por Bauman em A riqueza de poucos beneficia todos nós?: “Pessoas que são ricas estão ficando mais ricas apenas porque já são ricas. Pessoas que são pobres estão ficando mais pobres apenas porque já são pobres. Hoje a desigualdade continua a aprofundar-se pela ação de sua própria lógica e de seu momento. Ela não carece de nenhum auxílio ou estímulo a partir de fora – nenhum incentivo, pressão ou choque. A desigualdade social parece agora estar mais perto do que nunca de se transformar no primeiro moto-perpétuo da história – o qual seres humanos, depois de inumeráveis tentativas fracassadas, afinal conseguiram inventar e pôr em movimento.”

É verdade que o investimento em educação -especialmente a infantil- é o mais rentável do ponto de vista social a longo prazo, mas para conter a violência precisamos educar os nossos jovens, e, urgentemente, oferecer melhores oportunidades de renda e qualidade de vida em áreas vulneráveis. Para resolver a armadilha da desigualdade e assim prevenir a violência é preciso dar muita atenção à eficiência das ações e um caminho promissor é através do empreendedorismo social. A desigualdade não pode mais ser abordada sob a lógica do assistencialismo, mas sim de uma necessidade advinda da prevenção de riscos urbanos. O exemplo das olimpíadas de 2016 está aí para mostrar como os investidores privados precificaram mal os riscos políticos envolvidos.

Falhas de governança, principalmente nas relações intersetoriais, estiveram entre as principais causas da crise mundial de 2008 e as que se sucederam, afetando a credibilidade de muitos governos partidários da Terceira Via. Incluiu-se então na agenda da Terceira Via o fortalecimento da sociedade civil e das suas relações com o setor público e privado um importante aspecto, o da boa governança. Apesar da defesa da diminuição do tamanho do Estado através de um sistema tributário mais simples e progressivo, essa reforma do Estado deveria ocorrer simultaneamente ao fortalecimento do seu papel regulatório, da fiscalização e das capacidades para reduzir desigualdades. Com governança pública, começando por total transparência. Precisamos de uma nova PERESTROIKA. Aqui e no mundo.



Tags: desigualdade, pobres, politica, ricos, rio, sociais

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