Da onde vem o caráter da gente?
Muito estranho ler o jornal, de manhã, e saber que depois de cassado na última quarta-feira, por envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, e de ter sido articulador da aprovação da Lei da Ficha Limpa, o ex-senador, Demóstenes Torres reassuma o cargo de procurador da Justiça no MP-GO, de onde estava licenciado há 13 anos com um salário de 24.000 reais. Coisa boa não é? Pode dar o golpe que quiser, ganhar o que quiser fora da Justiça Federal, ou seja, na injustiça generalizada, que a Federal continua fixa e fiel como uma mulher apaixonada que finge que não vê as traições do marido. Enquanto isso, um casal de mendigos que achou 25.000 reais na rua, devolveu-os imediatamente, já que, segundo o próprio mendigo, tinha aprendido com a mãe que”nunca se deve ficar com o que é dos outros.”
Será que não deveria ser esse mendigo, o verdadeiro procurador da Justiça Estadual? Será que já nascemos com caráter definido, ou sem ele?
Então cansei de ler notícias que são sempre as mesmas desde que comecei a ler jornal, com algumas mudanças piores, e fui ver o filme do Woody Allen, que ninguém é de ferro, “para Roma com amor”, no Shopping Downtown, um dos mais simpáticos da Barra, pois é espaçoso, pode-se passear por ele sem aglomeraçções, parando de vez em quando pra ver lojas de bom gosto ou em restaurantes simpáticos com toda espécie de culinária.
A primeira vez que vi um filme de Woody Allen, por coincidência, foi em Roma, quando morava lá, levada por minha amiga Thais Portinho que passeava na Europa. Fiquei boquiaberta com tanta inteligência e humor. Então, desde aquela época, na Itália, que virei sua fã incondicional.
Tenho uma ligação muito forte com Roma, um sentimento que me emociona mesmo, me fazendo chorar. E quando no começo do filme, Domenico Modugno começa a cantar “Volare”, em cima da paisagem rosa escuro dos prédios inacreditáveis da cidade, meus olhos se encheram de lágrimas.
Depois, a Piazza di Spagna onde ficava muito sentada ali naquela escadaria antes de descer pra olhar as lojas mais bonitas do pedaço.
Foi a época mais feliz da minha vida, disso não tenho dúvida, onde morei três anos, depois de dois bem menos felizes, em Paris, na época do exílio.
Engraçada essa ligação com Roma pois é uma coisa carnal. E, por coincidência, (ou não) como diz Caetano, fui uma vez, aqui no Rio, com o Vicente Pereira, que o frequentava sempre, visitar o Mário Trancoso, um vidente de ótima fama, alem da delicadeza incrivel e simpatia da sua própria pessoa. Eu estava na fila pra cumprimenta-lo, no seu centro espírita, em Botafogo, quando ele me chamou, mandou eu passar à frente das pessoas, e me disse que tinha que me dizer que, numa outra encarnação eu fora uma Medicis .
E agora, mais de trinta anos depois reencontrei um amigo cujo sobrenome é Medicis e nunca mais nos largamos.
Mas, voltando “para Roma com amor”, fiquei entre lágrimas e gargalhadas adorando estar ali assistindo ao Roberto Benigni, ao próprio Woody Allen, àquela história hilária do homem cantando no chuveiro, do Woody, que foi um dos primeiros cineastas a divulgar a psicanálise no cinema, agora duvidar um pouco dela, assim como eu, quarenta anos depois de tratamento após tratamento. Será que tem jeito, ou é como a história do Demóstenes Torres e a do mendigo que achou 25.000 reais, uma herança genética?
Os três últimos filmes que vi do Woody Allen, foram dos melhores dele, que andou até um pouco “menos” antes desses três: Match Point, Meia-Noite em Paris e “Para Roma com amor”. Será que foi a psicanálise, que depois de uns quarenta anos, como eu, fez ele voltar à maravilha que era antes?
Saimos do filme e resolvemos continuar em Roma, comendo uma pizza, rindo muito de algumas cenas do filme, tomando vinho e falando dos Medicis.
