Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Aqui e agora 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Comecei a fazer uma segundo andar na minha casa. O tempo da obra seria de mais ou menos quatro meses. Já passou um ano e todo dia ainda encontramos coisas a reparar, como paredes com infiltração, que o pedreiro diz que é devido a “humildade” do tempo e culpa da minha mangueira que faz sombra na casa. 

Praticamente comprei a casa por causa dessa mangueira que amo de paixão e que embeleza tudo o que está ao seu redor: plantas, bancos, azulejos antigos, e por aí vai... Aí começa a dar problema na madeira das portas. 

- A senhora tinha que trocar isso tudo e botar umas porta nova, moderna - diz o pedreiro.

- Adoro essa casa porque ela é colonial, Paulo. Tem mais de cem anos...

- Por que é que a senhora não vende e compra uma moderna?

- Por que eu não gosto, Paulo, nem tenho dinheiro.

Ao lado da minha casa derrubaram tudo que era antigo pra fazer um prédio enorme e moderno, como eles gostam. Então, alem do barulho da minha obra, pessoal, ainda tem o bate-estaca do vizinho que equivale a um tsunami misturado com um vulcão. Às vezes troca-se esse barulho por uma espécie de campainha de alarme que dura um tempo, não sei pra quê.

Dentre esse desespero todo também tem os meus  pedreiros que faltam e não dão satisfação.

Quando penso que vou pirar de vez, um amigo corretor me telefona  pra me mostrar um apartamento, no Flamengo, que quero que um amigo veja e compre.

Passei a freqüentar de novo esse bairro, por causa do colégio Bennett, onde meus netos estudam, mas nunca tenho tempo de passear por lá.

Então saltei depois da Av. Ruy Barbosa, que tenho paixão, andei pela Praia do Flamengo e fiquei olhando os prédios art-deco, que um francês, expert nesse tipo de arquitetura veio estudar no Rio e que me chamou a atenção pra eles num jantar onde nos encontramos.

São incríveis realmente. O próprio prédio que fui ver tem detalhes maravilhosos dessa arte, nas paredes nas portas e noteto, tudo rodeado por uma das vistas mais lindas do Rio.

Depois saí andando pelas ruas onde moravam algumas tias, entrei nos edifícios que não via há séculos, tão entrosada com eles, a ponto de conversar com os porteiros  e contar pedaços da minha vida passada por ali .

Continuei andando e espairecendo a minha cabeça, olhando construções de todos os estilos: art-nouveau, neo-romântico, neo-manuelino, e muitos no estilo “neo-acredito”, talvez ainda o que mais se vê hoje em dia, cheios de puxadinhos, janelas de alumínio substituindo as de madeira coloniais e outros absurdos. Mas o bairro resiste e continua lindo.

Então voltei pra casa pra esperar pelos pedreiros, comecei de novo a me estressar com dinheiro, netos, obras, lembranças, e resolvi ler o jornal pra ver se relaxava.

Então abri numa matéria que falava de “Ladrões de bebês” : raptos de crianças cometidos na Argentina, pelos ex-ditadores: Jorge Videla  e Reynaldo Bignomme, que, finalmente foram condenados à prisão perpétua.

Os raptos dos bebês, que, segundo a ditadura militar , presente entre os anos 76 e 83,foram feitos como parte de um plano de aniquilação de parte da sociedade. 

Li sobre um dos bebês que se salvaram, chamado Madriaga, que conta que era tratado pelos militares como escravo e troféu de guerra e que quando conseguiu reencontrar o seu pai, disse que ambos, agora, só pensam em ficar juntos, já que a mãe de Madriaga já morreu, e aproveitar o presente que Deus lhes deu. “O resto, deve ser preenchido pela vida”, diz ele.

Acabei de ler o jornal, pedi perdão pelas minhas queixas absurdas dos barulhos de obra e dos pedreiros que não vêm, e resolvi construir uma nova vida pra mim num neo estilo, sem puxadinhos e janelas de alumínio, mas apenas no aqui e agora.

Tags: apartamento, Argentina, coluna, JB, maria lucia dahl

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