Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Maria Lucia Dahl

Aqui e agora 

Maria Lucia Dahl

Nunca pensei que ter netos fosse tão maravilhoso. Isso, se o tempo parasse e nos deixasse brincar um pouco com eles. Mas a única coisa que para, hoje em dia, é o trânsito. Mas aí os netos não estão. Estão no colégio, no computador, nos Ipads, Iphones - ai meu Deus! - que passam o dia curtindo, seja onde estiverem, pois tudo  agora  é portável e absolutamente insuportável, ao mesmo tempo. Conversar com netos tornou-se uma  missão impossível.

Como deveria ser bom ser avó na época de Dona Benta, de Monteiro Lobato, que tudo o que tinha a fazer com os netos, e na vida, era contar histórias, enquanto Tia Nastácia, a empregada, fazia todo o resto.

O único tempo que tenho livre, atualmente, é dentro dos táxis, onde aproveito pra fazer unha, pois já entro neles munida dos apetrechos necessários: tesourinha, lixa, canivete e até verniz, pois já que não existe o problema de freada súbita, o esmalte não borra e a unha fica perfeita.

Faço também maquiagem, crônicas e, às vezes até costuro um rasgão feito pela cachorra do meu namorado, que morta de ciúmes de mim, me dá um puxão,  de repente, com sua boca de rotweiller, linda, uma santa, porem,  quem acredita no caráter deles?

Duas horas e meia, de Botafogo à Barra, por exemplo, é mais ou menos o que se poderia contar. Ficou difícil marcar hora pra trabalho, jantar, festa, e já fui a algumas às quais  não tinha ninguém pois, depois de horas presos nos carros, a maioria dos convidados  resolveu voltar pra casa.

Vamos ter que arranjar uns Cachoeiras, infelizmente, para que nos financiem uns helicópteros.

Quem sabe, assim, podemos  fazer viagens ao céu, como faziam, também, os netos de Dona Benta, e ter um pouquinho de tempo pra poder brincar com eles?

Então, um dia, resolvi deixar o trabalho de lado, tal como: controlar a obra que está sendo feita lá em casa, para que a visão que eu tenho dela possa coincidir com a do pedreiro, o oposto da minha.

Adoro esse pedreiro, mas outro dia levei um susto com ele quando eu estava pregando uns pratos na parede e ele chegou com olhos esbugalhados de susto e disse com voz assustada:

- Dona Lucia, a senhora está bem ?

- Estou ótima. Por que, Seu Paulo  ?

- Eu acho que a senhora devia ir deitar e dormir um pouquinho pra relaxar...

- Mas por que, Seu Paulo?

- Dona Lúcia, por que a senhora está colocando pratos nas paredes! Prato, a gente coloca na mesa!

Já a faxineira coloca tudo que está em cima dos móveis, enviesados, quando antes estavam retos, e aí eu tenho que ir lá e arruma-los retos de novo, como cinzeiros, castiçais, e até o computador que ela vira de lado, dentro da sua estética. 

Então resolvo tomar uma decisão pra ficar um pouco com, pelo menos, um dos meus netos pequenos. Pego o carro e resolvo ir a Santa Teresa ver a vista, o bondinho, passear. Coloco-o na cadeirinha de criança, no banco de trás, e vamos curtindo um lugar sem tráfego. Eu só não esperava que teria tráfico.  Estou distraída com o neto contando histórias, quando dois homens armados apontam os seus revólveres pedindo a minha bolsa. Respondi que entregaria a bolsa mas que, por favor, eles não tocassem no bebê que estava na cadeirinha lá atrás. 

Então, meu neto, danado da vida respondeu:

- O Antonio não é bebê! O Antonio não é bebê! 

O que fez com que os ladrões me tirassem a bolsa, delicadamente, e fossem embora.

E agora, José? Onde brincar com os netos?

Tags: coluna, JB, maria lucia dahl, netos, Tempo

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