Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Leonardo Boff

Colunistas - Leonardo Boff

Insuficiências conceptuais da Rio+20 

Jornal do Brasil Leonardo Boff*  

Não corresponde à realidade dizer que a Rio+20 foi um sucesso. Pois não se chegou a nenhuma medida vinculante nem se criaram fundos para a erradicação da pobreza nem mecanismos para o controle do aquecimento global. Não se tomaram decisões que realizassem o propósito da Conferência que era criar as condições para o futuro que queremos. É da lógica dos governos não admitirem fracassos. Mas nem por isso deixam de sê-lo. Dada a degradação geral de todos os serviços ecossistêmicos, não progredir significa regredir.

No fundo afirma-se: se a crise se encontra no crescimento, então a solução se dá com mais crescimento ainda. Isso concretamente significa: mais uso dos bens e serviços da natureza denunciado como depredador e mais pressão sobre os ecossistemas, já nos seus limites. Dados dos próprios organismos da ONU dão conta que desde a Rio 92 houve uma perda de 12% da biodiversidade, 3 milhões de metros quadrados de florestas foram desmatados, 40% mais gases de efeito estufa foram emitidos e cerca da  metade das reservas de pesca mundiais foram exauridas.

O que espanta é que o documento final e o borrador não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por que chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceptual deste e de outros documentos oficiais da ONU. Elenquemos alguns pontos críticos.

Continuam dentro do velho software cultural e social que coloca o ser humano numa posição adâmica: sobre a natureza como o seu dominador e explorador, razão fundamental da atual crise ecológica. Não entende o ser humano como parte da natureza e responsável pelo destino comum. Não incorporou visão da nova cosmologia que entende a Terra como viva e o ser humano como a porção consciente e inteligente da própria Terra com a missão de cuidar dela e garantir-lhe sustentabilidade. Ela é vista tão somente como um reservatório de recursos, sem inteligência e propósito. 

Introduziu a “grande transformação” (Polanyi) ao anular a ética, marginalizar a política e instaurar como único eixo estruturador de toda a sociedade a economia; de uma economia de mercado passou-se a uma sociedade de mercado, descolando a economia real da economia financeira especulativa, esta comandando aquela. Confundiu desenvolvimento com crescimento, aquele como o conjunto de valores e condições que permitem o desabrochar da existência humana e este como mera produção de bens a serem comercializados no mercado e consumidos. Entende a sustentabilidade como a maneira de garantir a continuidade e a reprodução das instituições, das empresas e de outras instâncias, sem mudar sua lógica interna e sem questionar os impactos que causam sobre o todo do sistema-Terra e do sistema-Vida. É refém de uma concepção antropocêntrica como se todos os demais seres somente tivessem sentido na medida em que se ordenam ao ser humano, desconhecendo a comunidade de vida, também gerada, como nós, pela Mãe Terra. Entretêm uma relação utilitarista com todos os seres, negando-lhes valor intrínseco, como sujeitos de respeito e de direitos, especialmente o planeta Terra. 

Por considerar tudo pela ótica do econômico que se rege pela competição e não pela cooperação, aboliu a ética e a dimensão espiritual nos processos de produção, distribuição e consumo. Vivemos tempos de barbárie, insensíveis à paixão de milhões e milhões de famintos e miseráveis. Por isso impera radical individualismo, cada país buscando o seu bem particular por cima do bem comum global, o  que impede, nas Conferências da ONU, consensos e convergências na diversidade. E asssim, hilariantes e alienados, rumamos ao encontro de um abismo, cavado por nossa falta de razão cordial, de sabedoria e de sentido transcendente da existência humana neste planeta. 

Se a humanidade não definir outra maneira de habitar a Terra – esse era o clamor da Cúpula dos Povos, os representantes da sociedade civil mundial – não sairemos da presente crise. Na pior das hipóteses, a Terra poderá continuar mas sem nós. Que Deus não o permita, porque é “o soberano amante da vida” como atestam as Escrituras judaico-cristãs. 

* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é escritor. - lboff@leonardoboff.com

 



Tags: Artigo, MEIO AMBIENTE, boff, colunista, sustentabilidade

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