Jornal do Brasil

Sábado, 21 de Outubro de 2017

Colunistas - Juventude de Fé

Racismo religioso é o retrato da intolerância no Brasil

Jornal do BrasilWalmyr Junior 

A população negra no Brasil vive um tempo desafiador. Além da luta pela sobrevivência, a superação do racismo, do atraso social, econômico e político, muitos de nós temos que encarar o desrespeito e a intolerância em relação a suas formas mais diversas de expressar a fé. Sabemos que as religiões de matrizes africanas, como o candomblé e a umbanda, são frequentemente alvo de preconceito e seus frequentadores e adeptos sofrem cotidianamente com agressões e ataques físicos e simbólicos contra seus símbolos e casas institucionais de culto, popularmente conhecidas como casa de santo/axé, roça ou terreiros.

Não restam dúvidas que essas ações são pano de fundo do preconceito racial, tendo em vista que a história de fundação da religiosidade de matrizes africanas é fruto da resistência dos escravos no Brasil. Entendendo que a maioria dos seguidores dessas religiões são negros e negras, vemos se espalhando no Brasil o ato criminoso do "racismo religioso". Afirmo isso a simples constatação em ver que nenhum outro segmento religioso sofre tantos atentados e encontra tamanha resistência. 

É importante frisar que o processo de escravidão e, logo depois,o racismo no Brasil, são ferramentas estruturantes para a manutenção dos privilégios de uma minoria, rica e branca, que domina a disputa hegemônica no país. O resultado dessa força opressora estruturada e organizada na sociedade usa equivocadamente a religião (quase sempre cristã) como justificativa para demonizar as divindades cultuadas pelos povos de matrizes africanas, acirrando as relações interpessoais e de forma categórica, praticando o racismo institucional e religioso nas entrelinhas deste processo.

Entende-se entrelinhas: Queima e apedrejamento dos terreiros, agressão a uma criança porque vestiu uma roupa que a identifica com a sua religião, linchamento verbal na internet e redes sociais de praticantes que publicam fotos no exercício de sua fé e que logo promovem sadiamente suas experiências em seus cultos. Dentre outros casos que estão no cotidiano. 

Quero especificar um ponto dessas ‘entrelinhas’ que se reverberou nos últimos anos como uma pró-ofensiva que de maneira geral tem preocupado muita gente: o caso do processo de evangelização dos traficantes nas favelas e periferias Brasil afora. Vemos nas linhas dos jornais citarem com muita frequência a expulsão de mães e filhos de santos das favelas por iniciativas de traficantes evangélicos. Inspirados pelo fundamentalismo religioso, ‘os meninos do tráfico’, categorizaram nas favelas a premissa de que as religiões de matrizes africanas são reflexo do mal, e que de certa forma, a permanência delas na favela não são passiveis de convivência. 

Acredito que o vazio deixado pelo Estado, somado ao enfraquecimento da Igreja Católica nas áreas faveladas, permitiu o crescimento das igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, que de certo modo levantam o discurso equivocado da demonização das religiões de matrizes africanas. Óbvio que não é a regra, mas um número considerável de pastores reproduzem essas práticas nos seus territórios de ação. 

Nos muros das favelas vemos as pichações de demarcação territorial das facções criminosas emendadas a frases de salmos e passagens bíblicas. Cultos no meio dos bailes funks acontecem na maioria das favelas, somados a pedidos de orações aos evangélicos por parte de traficantes.  Segundo registros da Associação de Proteção dos Amigos e Adeptos do Culto Afro Brasileiro e Espírita, pelo menos 40 religiosos foram expulsos pelo tráfico de favelas na cidade do Rio de Janeiro.

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) trouxe como temática na prova de redação a necessidade de rompermos com tais violências, problematizando os “caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Na prova, os inscritos puderam falar das suas experiências e possíveis tentativas de vivermos um caminho de paz e unidade entre as religiões. Sabemos que as comunidades e povos de matrizes africanas são forjados pela resistência e luta pelo culto e memória da sua ancestralidade. Com isso, vemos que essas características reverberam a força do povo preto no Brasil. 

Vejo que somente com uma mudança estrutural da educação na sociedade brasileira podemos trazer resultados efetivos quando o assunto é igualdade racial e religiosa. O exemplo do samba e da capoeira, que em outros períodos da história eram proibidos, servem de referências para o combate ao preconceito, e nos motivam para lutar pela proteção da população que tem suas referências nas religiões de matrizes africanas. Infelizmente, não podemos afirmar que já tivemos os mesmos avanços das políticas públicas que as expressões culturais citadas acima obtiveram. Porém, nos resta resistir e lutar para que todo povo brasileiro, tenha garantida a efetivação dos seus direitos. 

* Walmyr Junior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atua como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ

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