O Paquistão decidiu neste sábado revisar suas relações diplomáticas e militares com os Estados Unidos e a Otan, após o bombardeio da Aliança Atlântica que matou por engano 26 soldados paquistaneses na fronteira com o Afeganistão, informou o governo em Islamabad.
A decisão, que afetará todos os acordos diplomáticos, políticos, militares e de inteligência, foi adotada em reunião extraordinária dos ministros e chefes militares presidida pelo primeiro-ministro paquistanês, Yusuf Raza Gilani, destaca o comunicado.
O Comitê de Defesa do Governo (DDC) confirmou a decisão de fechar a fronteira afegã aos comboios da Otan, adotada na manhã deste sábado, e pediu aos Estados Unidos que desocupem a base aérea utilizada para os ataques de aviões sem piloto da Agência Central de Inteligência (CIA) contra as zonas tribais na fronteira entre Paquistão e Afeganistão.
"O DCC decidiu fechar de imediato à Otan/Isaf (Força Internacional de Assistência à Segurança no Afeganistão) as rotas de apoio logístico. O DCC também decidiu pedir aos Estados Unidos que desocupem a base aérea de Shamsi em 15 dias’.
O Comitê ‘decidiu ainda que o governo empreenderá uma revisão completa de todos os programas, atividades e acordos de cooperação com os Estados Unidos, a Otan e a Isaf, incluindo as relações diplomáticas, políticas, militares e de inteligência’.
O governo do Paquistão acusa a Otan de matar 26 soldados paquistaneses neste sábado na zona de fronteira com o Afeganistão, no pior incidente deste tipo em 10 anos.
O porta-voz da Isaf, o general alemão Carsten Jacobson, admitiu que aparelhos da força ‘muito provavelmente causaram as baixas’ paquistanesas.
O ataque da Otan ocorreu de madrugada em uma zona tribal da fronteira entre Paquistão e Afeganistão, um tradicional reduto de talibãs e da rede Al-Qaeda, que realizam operações constantes contra tropas da Otan em território afegão.
Segundo o general Jacobson, as tropas regulares afegãs e as da Isaf que operavam na província afegã de Kunar (leste) pediram apoio aéreo e ‘é muito provável que esse apoio aéreo (...) tenha causado as baixas’.
De acordo com Islamabad, helicópteros da Otan bombardearam durante a madrugada um posto militar paquistanês em Baizai, no distrito tribal de Khyber, na fronteira com o Afeganistão.
O premier Yusuf Raza Gilani protestou ‘nos termos mais enérgicos’ com a Otan e os Estados Unidos, país que dirige a coalizão internacional no Afeganistão, enquanto oficiais paquistaneses afirmavam que o ataque foi ‘deliberado’.
Em Cabul, a Isaf confirmou que um ‘incidente ocorreu’ e garantiu que realizará uma ‘investigação profunda’, já que soldados paquistaneses ‘podem ter sido mortos ou feridos’.
Após o incidente, o Paquistão ordenou o bloqueio dos comboios de abastecimento da Otan no Afeganistão que passam por seu território.
Uma caravana de caminhões que se encontrava perto de cruzar a fronteira em Khyber ‘foi reenviada a Peshawar’, principal cidade do nordeste do país, disse Muthair Hussein, responsável pela administração de Khyber, por onde pasam as cargas de provisões da Otan.
Nos últimos anos, o Paquistão denunciou por diversas vezes a violação do espaço aéreo nacional por parte da Isaf. A última crise ocorreu em setembro, quando Islamabad acusou a força internacional de matar dois soldados paquistaneses.
Já nesta oportunidade Islamabad ordenou o bloqueio dos comboios de abastecimento da Otan. A fronteira ficou fechada por duas semanas, e só foi reaberta depois que o governo dos Estados Unidos pediu desculpas formalmente.
A grande maioria das provisões da Otan no Afeganistão chega por barco até Karachi, porto do sul do Paquistão, e depois transita por terra através de Peshawar e pela fronteira de Khyber, ou através de Quetta e da cidade fronteiriça de Chaman.