A esquina da casa do premiê israelense Benjamin Netanyahu ficou lotada na noite desta terça-feira. Lá, os pais do soldado Gilad Shalit, sequestrado em 2006 pelo Hamas na Faixa de Gaza, costumavam fazer um protesto silencioso dia e noite. Noam e Aviva, sob uma tenda de campanha, faziam a vigília na companhia de uma dezena de amigos e familiares, mas na noite de ontem, uma multidão de jornalistas e vizinhos tomaram o local em clima de festejo e ansiedade.
O governo israelense anunciou nesta terça-feira o acerto de um acordo com o movimento islâmico Hamas para trocar Shalit por mil prisioneiros palestinos. A televisão Al Arabiya confirmou que as negociações secretas ocorreram na última semana, com a mediação do Egito e da Alemanha.
Enquanto o gabinete de governo votava sobre o acordo, Noam continuava à espera. "Estamos aqui como todo mundo. Recebemos as notícias, mas realmente não sabemos além do que foi publicado. Esperamos os últimos acontecimentos", disse o pai de Shalit aos jornalistas locais. No início de setembro, Noam foi a Nova Iorque para pedir a diplomatas de todo o mundo que só reconheçam o Estado Palestino na ONU depois que libertem seu filho. Na volta a Jerusalém, ele continuava firme e forte na vigília em Jerusalém, e disse à reportagem que não tinha percebido nenhum grande movimento nem por parte da ONU, nem do governo.
Ontem, Noam confirmou à televisão pública de Israel que não estava a par das últimas negociações de Netanyahu sobre o acordo de libertação de seu filho. Mais tarde, ele deixou a casa do rabino Ovadia Yosef, onde rezaram pelo retorno de Shalit. O tio do soldado recordou que a família passou por um momento muito similar em dezembro de 2009, quando tudo parecia pronto para uma troca de prisioneiros e libertação de Shalit. "Eu sinto que desta vez as partes entendem que é agora ou nunca. Temos uma janela muito estreita de oportunidade", disse à TV local. "O governo de Israel aceitou concluir este acordo despertando para os crescentes protestos no país", completou.
"Como irmão, pai, filho, eu entendo este grito do fundo do meu coração", discursou Netanyahu. "Mas eu vejo, como todo premiê israelense, a segurança dos cidadãos. O Estado de Israel está disposto a pagar um preço muito alto pela libertação de Shalit", completou. Por outro lado, o chanceler, Avigdor Lieberman, disse que votaria contra a proposta "com o coração pesado", mas não pediria o mesmo dos colegas ministros do partido Israel Beiteinu. "É o tipo de questão que precisa ser decidida individualmente, de acordo com a consciência de cada um".
GazaNa Faixa de Gaza, milhares de palestinos também comemoraram o anúncio da libertação dos prisioneiros feito pelo primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh. Entre os presos a serem libertados estaria Marwane Barghouthi, responsável por liderar os palestinos contra Israel na primeira e segunda intifadas, nos anos 1987 e 2000.
Há duas semana, cerca de 200 prisioneiros palestinos começaram uma greve de fome para pressionar as autoridades de Israel a melhorarem as condições do sistema presidiário. Ao todo, são 5,3 mil palestinos em 23 penitenciárias e cadeias, cujos crimes variam desde jogar pedras em soldados israelenses a planejar de atentados a bomba contra civis. Na madrugada de hoje, 2 mil se juntaram à greve.
O principal empecilho para o governo israelense acertar uma troca de Shalit por prisioneiros palestinos se devia ao número exigido pelo Hamas, uma vez que 400 estariam envolvidos com atentados violentos. O retorno ao local de origem também era outro ponto que incomodava o governo de Netanyahu, que queria que os liberados fossem enviados à Faixa de Gaza, ainda que tivessem residência fixa na Cisjordânia.