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França quer virar a página da 'novela' Strauss-Kahn

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A França espera virar a página do escândalo desencadeado com a denúncia de tentativa de estupro em Nova York contra o ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn, após o ato de arrependimento que protagonizou no domingo pela televisão diante de milhões de telespectadores.

Mais de 13,4 milhões de pessoas acompanharam na noite de domingo a primeira entrevista pública de Strauss-Kahn, desde sua prisão em 14 de maio, acusado de tentativa de estupro pela camareira guineana Nafissatou Diallo, de 32 anos, em um luxuoso hotel nova-iorquino.

Um recorde de audiência que não era registrado desde novembro de 2005, quando os subúrbios de Paris e outras cidades francesas foram cenário de violência urbana.

"O que houve foi uma relação inapropriada (...), uma falta moral", afirmou Strauss-Kahn, 62 anos, após assegurar que "não houve violência, nem coerção, nem agressão", ao se referir à decisão do promotor de Nova York, que em 23 de agosto retirou as sete acusações que pesavam contra ele.

"Perdi muito com essa história. Nestes quatro meses vi a dor que provoquei ao meu redor", admitiu, apesar de não pedir desculpas públicas como muitos pediram, sobretudo em seu partido.

No entanto, alguns especialistas afirmam que ele foi "convincente, honesto e valente", nas palavras do sociólogo Dominique Wolton, ou que "fez o melhor possível", para o cientista político Roland Cayrol.

Muitas críticas foram publicadas nesta segunda-feira à entrevista de cerca de 20 minutos dada ao telejornal do canal privado TF1, qualificado pela imprensa de "temível exercício midiático" e por alguns líderes políticos de "entrevista totalmente pré-fabricada".

"O interessante foi o que ele não disse", reagiu Douglas Wigdor, um dos advogados de Diallo que espera interrogar Strauss-Kahn em um processo civil.

A mesma linha foi seguida por Anne Mansouret, mãe de Tristane Banon, a jornalista de 32 anos que em julho acusou Strauss-Kahn de tentativa de estupro em 2003 em Paris.

"Não explicou nada, foi apenas um exercício de dramaturgia", disse a mulher que meses atrás admitiu ter mantido relações sexuais com Strauss-Kahn.

Fontes próximas às investigações insistem que a promotoria poderia arquivar o caso, pois oito anos depois não há provas materiais.

Banon anunciou na segunda-feira, em um programa de televisão, que se a promotoria arquivar a denúncia entrará com uma ação civil contra Strauss-Kahn, pois "o expediente não está vazio".

Organizações feministas criticaram o teor da entrevista de Strauss-Kahn na televisão.

"O mais grave é que toda vez que a dignidade de uma mulher está em julgamento, tentam fazê-la se passar por mentirosa", indignou-se a advogada feminista Giséle Halimi.

Strauss-Kahn, que até maio passado era o grande favorito dos franceses para derrotar nas urnas em 2012 o atual presidente conservador Nicolas Sarkozy, negou que o ocorrido em Nova York tenha sido um "ato falho" porque não queria ser candidato à presidência.

"Não acredito nessa tese", respondeu secamente Strauss-Kahn, sem convencer o psiquiatra Serge Hefez, para quem "em algum momento ele tem de se perguntar sobre sua responsabilidade no fato de seu destino ter mudado em alguns segundos".

Após assegurar que pretende "descansar" e "refletir", Strauss-Kahn - ex-ministro, prefeito e deputado - deixou a porta aberta para sua volta à política ao lembrar que toda sua vida "foi dedicada a ser útil ao bem público".

Da direita à esquerda, esta última imersa nas primárias socialistas que em outubro escolherão o rival de Sarkozy, opinaram que essa intervenção televisiva teria que colocar um fim ao caso Strauss-Kahn.

O número um do governante UMP, Jean Frnçois Copé, expressou seu desejo de que "isso encerre uma vez por toda esta novela que já durou demais" antes de qualificar a apresentação de Strauss-Kahn de "irrisória e triste".

"Como telespectadora, tive vontade de virar a página", afirmou Ségolène Royal nesta segunda-feira, mesma ideia do jornal Liberation em seu editorial: "ao desligar a TV à noite, só tínhamos vontade de pensar em outra coisa".