A batalha judicial entre Dominique Strauss-Kahn e a camareira africana Nafissatou Diallo, que o acusou de agressão sexual no último mês de maio, não poderia ter tido um desfecho mais provável. Se tratasse de um filme hollywoodiano ou um seriado desses que mostram os bastidores da justiça, o final talvez fosse diferente, já que na ficção os pobres e oprimidos tendem a ganhar e conseguir justiça. Já na vida real, o roteiro é bem menos animador: a justiça arquivou o caso em que economista DSK (como é conhecido na França) era acusado de estuprar Diallo, camareira do hotel Sofitel de Manhattan.
Os promotores consideraram que a vítima mentiu em excesso e que não podia ser considerada confiável em um julgamento. Eles admitiram que uma breve relação sexual pode ter ocorrido entre eles, mas que não seria possível estabelecer de maneira independente que se tratou de uma relação forçada. Segundo informações do jornal francês L’Express, porém, o exame médico realizado na camareira no dia 14 de maio, em Nova York, concluiu que ela foi mesmo estuprada.
Será que as contradições da africana pesaram tanto a ponto de dar a liberdade ao ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou este foi apenas mais um caso em que um homem poderoso escapa impunemente de uma condenação?
Mesmo sem conhecer detalhadamente os autos do processo, a defensora pública do Estado de São Paulo e Professora de Direito Constitucional da PUC-SP, Mônica de Mello, afirma que este caso pode ser analisado através de duas óticas. Uma delas é o recorte de gênero. Segundo ela, em crimes de natureza sexual em que a vítima é mulher, ela acaba sendo transformada em ré. Desta forma, a defesa do réu procura desabonar a vítima dentro de sua conduta, dizendo que ela provocou o fato, pois usava uma roupa inadequada, até que o homem teve que tomar uma atitude, por exemplo. Uma tentativa de quase responsabilizá-la pelo próprio crime.
“Uma outra ótica que podemos analisar, que vejo pela minha experiência no Brasil, é que existe mesmo um recorte de classe na justiça criminal. Os pobres é que acabam indo parar na cadeia, não só porque os ricos têm mais recursos, mas porque o juiz se identifica mais com ele. Neste caso, ela é uma camareira pobre e ele uma pessoa super respeitada. São os dois “agravantes”. Faz-se todas as tentativas de inocentá-lo e de degradar essa moça”, analisa a defensora pública.
Já para o Professor de Relações Internacionais da Ibmec, Creomar de Souza, fica difícil saber até que ponto realmente houve uma diferença entre aquilo que aconteceu e o que a vítima relatou ou se DSK teve algum apoio de sua rede de contatos para sua libertação.
“É difícil precisar sem analisar o processo de perto, mas o que envolve o caso é uma situação bastante polêmica, já que ele era o principal candidato a presidência da França. Pela mídia, ele foi automaticamente condenado. Poucos foram os jornais que disseram que ele era ‘suspeito’. Isso acabou por sepultar todas suas pretensões políticas”, diz.
Creomar garante que o episódio causou bastante estranheza na opinião pública francesa e que isso obviamente teve um efeito sobre o eleitorado. Sobre o apoio dado por sua mulher, a milionária Anne Sinclair, uma figura muito influente e conhecida na França, ele avalia que teve um efeito positivo. Mas não deixa de ressaltar que isso não significa que DSK seja realmente inocente, já que “em outros casos, políticos foram acusados de assédio sexual e suas esposas também ficaram do lado deles”.
A professora de Relações Internacionais da UFRJ e da Escola de Guerra Naval, Sabrina Medeiros, acredita que, pelas grandes proporções do caso, teria sido muito arriscado os juízes se submeterem a algum tipo de pressão política. E chama atenção para uma lição nessa história.
“Assim como em vários outros casos conspirativos da história, os interesses de estado, corporativos ou privados sempre estão envolvidos numa rede de colaboradores e de relações interdependentes. Nesse caso, não se pode mensurar todos os interesses relacionados à acusação”, finaliza.