Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Internacional

Liderança de insurgentes na Líbia condena postura do Brasil

Portal Terra

Brasil e os países emergentes que vêm se posicionando contrários à intervenção militar internacional na Líbia foram alvo de críticas de uma das lideranças dos insurgentes que desejam derrubar o ditador Muammar Kadafi do poder. Um dos dirigentes da Liga dos Direitos Humanos da Líbia, Alie Zeidan, afirmou nesta sexta-feira em Paris que "não aceita" que os países se oponham à reivindicação de ajuda feita pelo povo líbio, na expectativa de pôr fim à violência no país.

"Nós lembramos que essa intervenção vem de um apelo feito pelo povo líbio à comunidade internacional. Kadafi está matando civis, promovendo um genocídio contra o seu próprio povo. É por isso que não admito a postura que o Brasil teve", afirmou Zeidan, em resposta a uma pergunta feita pelo portal Terra durante uma coletiva de imprensa, na qual falou para jornalistas estrangeiros, na capital francesa. "Essa postura é inaceitável", disse, exaltado, o defensor dos direitos humanos na Líbia. Zeidan ocupa também o cargo de porta-voz na Europa do Conselho Nacional de Transição, governo provisório instalado pelos rebeldes de Benghazi, no leste da Líbia e onde a revolta popular ganhou força no país.

O Brasil, assim como a China, a Rússia, a Alemanha e a Índia, se absteve da votação da resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que autorizou a intervenção militar internacional na Líbia para instaurar uma zona de exclusão aérea no país e impedir que Kadafi continue bombardeando a própria população. Poucas horas após a partida do presidente americano Barack Obama do Brasil, onde realizou visita oficial no final de semana passado, a presidente Dilma Rousseff pediu o cessar-fogo na Líbia e uma "solução pacífica" para o conflito.

O líder insurgente explicou que não considera a intervenção militar promovida pela coalizão internacional - liderada por Estados Unidos, França e Inglaterra - como uma ingerência nos assuntos internos líbios. "Poderia ser visto desta forma se estivéssemos vivendo uma situação estável. Mas a situação real é outra, de crimes sucessivos contra a humanidade, e uma reação a isso não precisa de muita reflexão ou filosofia. Ela é necessária."

Zeidan - que está na França para articular conversas com dirigentes e organizações internacionais - ponderou que "compreende que o Brasil seja favorável a uma via diplomática", mas considera que os brasileiros e demais emergentes parecem não ter compreendido a dimensão da violência que tomou conta da Líbia. De acordo com a Liga de Direitos Humanos no país, entre 6 e 12 mil pessoas já morreram desde o início dos confrontos, em 17 de fevereiro.

"Acho que vocês, o Brasil, a Rússia e a Índia, não viram direito todos os crimes e genocídios que foram cometidos na Líbia", disse o representante do CNT, para quem a aprovação da resolução da ONU era uma obrigação da comunidade internacional. "Todos os meios diplomáticos foram tentados por quase um mês, sem sucesso. Não havia outra alternativa a não ser a intervenção."

Ele ainda afirmou que, se a resolução não tivesse sido aprovada, o ditador teria continuado a usar todos os meios possíveis para calar as vozes contrárias ao regime.

Projetos para a Líbia pós-Kadafi

Zeidan explicou que o Conselho Nacional de Transição já se prepara para a era pós-Kadafi: inicialmente, uma comissão vai apresentar uma proposta de Constituição para o país, amparo legal que não existe atualmente. Em seguida, eleições democráticas para o Parlamento serão convocadas, segundo ele, e os futuros deputados analisarão o texto constitucional, que deverá ser aprovado pela população através de um referendo. O representante rebelde garante que o levante popular contra o ditador almeja um Estado democrático e laico.

Líbia: de protestos contra Kadafi a guerra civil e intervenção internacional

Motivados pela onda de protestos que levaram à queda os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país em meados de fevereiro para contestar o líder Muammar Kadafi, no comando do país desde a revolução de 1969. Mais de um mês depois, no entanto, os protestos evoluíram para uma guerra civil que cindiu a Líbia em batalhas pelo controle de cidades estratégicas.

A violência dos confrontos entre as forças de Kadafi e a resistência rebelde, durante os quais milhares morreram e multidões fugiram do país, gerou a reação da comunidade internacional. Após medidas mais simbólicas que efetivas, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a instauração de uma zona de exclusão aérea no país. Menos de 48 horas depois, no dia 21 de março, começou a ofensiva da coalizão, com ataques de França, Reino Unido e Estados Unidos

Tags: brasil, insurgentes, kadafi, líbia

Comentários

3 comentários
  • Alder Oliveira L. e Silva, Rio de Janeiro
    Alder Oliveira L. e Silva, Rio de Janeiro

    Em breve esses que hoje lutam pela "liberdade", quando estiverem no poder, farão as mesmas coisas contra seu povo, se esse, se insurgir contra eles.
    O ser humano é assim! Uma lástima!

  • JAMIL TANURE FILHO, araçuai mg
    JAMIL TANURE FILHO, araçuai mg

    o problema maior não é o Kadafi e sim o que os EUA

  • Junior, Vila Velha - ES
    Junior, Vila Velha - ES

    ... "Acho que vocês, o Brasil, a Rússia e a Índia, não viram direito todos os crimes e genocídios que foram cometidos na Líbia" ...

    De fato, não vimos. Com tantos jornalistas no local, cadê as fotos do genocídio?
    Essa imprensa porca, capacho dos EUA, quer que pensemos que a oposição armada contra Kaddafi é a mesma coisa que povo líbio.

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