Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

Heloisa Tolipan

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Turma do Bem: meninas da periferia de São Paulo ganham empoderamento com tratamento bucal

Além disso, a ONG propôs uma rede de proteção entre beneficiárias e "madrinhas"

“Mais de 75% dos voluntários da Turma do Bem são mulheres, então agora a gente fala no feminino mesmo, meninos, acostumem-se”, disse Fábio Bibancos, aos risos, em Poços de Caldas (MG), durante o Sorriso do Bem, encontro anual onde é realizada também a festa de gala do Oscar a Odontologia. Mas o número, de fato, o levou a pensar. “Refletimos bastante sobre a questão mulher, o cuidado feminino… os dentistas do bem são As dentistas do bem. Somos femininos”.

Foi pensando nisso e nos 15 anos da Turma do Bem que ele criou o Projeto 15. Trata-se de uma rede de apoio às beneficiárias formada por meninas de coletivos feministas, estudantes ou graduadas, que viram madrinhas das beneficiárias com problemas sociais. São 17 meninas e 17 madrinhas e houve um processo de encontro entre elas para fazer o “match” de gostos e perfis. “Meninas empoderadas, formadas, estudantes, que conhecem leis, justiça, dificuldades das mulheres, ajudam as nossas beneficiárias. Construímos nessas adolescentes um empoderamento e elas têm além do tratamento dentário uma rede de proteção e prevenção junto às madrinhas”, explicou Bibancos.

Meninas da periferia de São Paulo ganharam madrinhas empoderadas
Meninas da periferia de São Paulo ganharam madrinhas empoderadas

Criou-se, assim, uma rede de meninas que cuidam de meninas. “Tudo começou quando, depois de 15 anos, tivemos um novo olhar sobre a situação das crianças que ajudamos. Descobrimos que os meninos vão muito bem, os que tinham problemas bucais fizeram o tratamento e têm agora tem oportunidade de crescer na vida. As meninas não. O que percebemos? Nos embelezávamos as garotas e gerávamos um novo problema social: a gravidez precoce. Descobrimos que muitas meninas ficavam grávidas jovens e não foram para frente profissionalmente”, disse Fábio. “Existem muitas diferenças entre meninos e meninas mesmo quando os dois têm as mesmas oportunidades e a culpa disso é o machismo”, lamentou.

“Nós enxergamos a fragilidade com que as meninas vivem e a que mundo estão expostas e, a partir desse contato, elas vêem como é legal ser essa menina empoderada, dona de si, e não aquela, que serve como um corpo, que é assediada. Elas tem palestras de educação sexual, empoderamento feminino. Propusemos um grupo de meninas que protegem e previnem problemas de outras, que passam a vê-las como modelo de vida”, disse.

A noite de gala do Oscar da Odontologia teve ainda a festa de debutante das meninas do Projeto 15, criado por Fábio Bibancos. O projeto foi idealizado pelos 15 anos da criação da Turma do Bem e conta com garotas de 12 anos a 17 anos que além do tratamento odontológico ganharam uma madrinha, selecionada em coletivos feministas da FGV e Mackenzie, que tem a missão de construir uma relação de amizade e troca com as beneficiárias. Fábio Bibancos constatou que os meninos atendidos pelo projeto conseguiam maior inclusão social e hoje muitos estavam formados. Já as meninas… engravidavam e não tinham tantas chances na sociedade. Agora, elas contam com oportunidades a partir da troca de experiências, conhecimento e apoio.

Vale lembrar que essa não é a primeira vez que Fábio Bibancos e sua Turma do Bem viram os olhares para a causa feminina. No ano passado, a ONG uniu forças com Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário de São Paulo e criou o projeto “Apolônias do Bem”, e atendeu mais de mil mulheres vítimas de violência doméstica. Com o apoio da ONU Mulher, as beneficiadas foram encaminhadas do projeto Fênix, voltado para recuperação de vítimas de agressões físicas ou psicológicas por situações de gênero, para os atendimentos odontológicos na Turma do Bem. Integrante e peça fundamental nesta luta coletiva contra a discriminação e a violência, a juíza Maria Domitilia Manssur, que integra o Comesp, destacou que o atendimento é expansivo a todas que se sentem e se apresentam como mulheres – cis ou trans. “O nosso objetivo não é discutir a questão da sexualidade. Eu trato de mulheres que foram vítimas de violência doméstica. Se essa pessoa está nessa condição e se apresenta como uma mulher, eu vejo como violência de gênero, seja trans ou cis. Não importa os motivos e nem a orientação sexual, ela apanhou porque é mulher”, chegou a dizer Fábio, na época.

E tudo começou com um batom, pelo menos foi o que revelou Marcelo Alonso. “O Fábio viu que quando recuperamos o sorriso de mulheres vítimas de violência elas pedem um batom para poder passar. Recuperam imediatamente a vaidade. A questão do sorriso é muito importante para personalidade e vida de qualquer pessoa”. Não temos dúvidas.

A proposta da Turma do Bem é promover a inclusão social por meio do sorriso, oferecendo não só tratamentos odontológicos e ortodônticos mas o resgate da autoestima e a possibilidade de uma vida plena. É por iniciativas como essa, em 15 anos, a ONG impactou mais de 70 mil jovens e 750 mulheres – dentro de outro projeto bem-sucedido, o “Apolônias do Bem”, que cuida de mulheres e trans vítimas de agressão. Em Poços de Caldas, Bibancos e sua equipe apresentaram aos voluntários seus mais novos projetos: o aplicativo Ismyli, que será uma plataforma de interação e comunicação dos dentistas, além de aprendizado, compras, e terá parte da renda revertida à Turma do Bem, e o Projeto 15, que é uma rede de proteção criada para que estudantes e recém-formadas “amadrinhem” beneficiadas com o intuito de ajudá-las, instruí-las e empoderá-las.

Estima-se que o retorno dos tratamentos da Turma do Bem para sociedade aproxime-se hoje de R$ 1 bilhão. Seu modelo inovador de gestão, baseado no voluntariado, caracterizado pela fácil reprodução e pelo baixo custo para a organização. Por seus projetos, a OSCIP ganhou o prêmio Empreendedor Social da Schwab Foundation; tornou-se fellow da Ashoka; foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas e escolhida pela fundação filantrópica Epic Foundation para integrar o primeiro portfólio de instituições que investem em alto impacto social. E seus integrantes, com certeza, querem ir muito além.

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