Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Heloisa Tolipan

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Atores de "Pega pega" soltam o verbo sobre política, ética e roubo

Assuntos norteiam a nova trama das 7 da TV Globo e também o cenário político brasileiro

O nome da nova novela das 7 da Globo já sugere muitas coisas. ‘Pega pega’ mistura comédia, romance e policial em um mesmo formato que busca abordar, com a mesma dose, todos os temas. A história gira em torno de um roubo de quarenta milhões de dólares a um hotel de luxo na praia de Copacabana, o Carioca Palace Hotel. Na narrativa, os próprios funcionários, a quem o dono confiava de olhos fechados, infringem a lei e ficam com a grana. Durante a noite de estreia que aconteceu nos Estúdios Globo, o elenco relacionou a trama com o momento que o país está passando. Na política, deputados, senadores e até mesmo o presidente são acusados de roubos, lavagem de dinheiro e compra de silêncio. Com ou sem prova, o fato é que estamos passando por um momento em que debates de cunho ético são cada vez mais levantados.

Mateus Solano atua ao lado de Camila Queiroz (Foto: João Bosco)

Chegando em um momento muito oportuno, a novela entra nas telinhas discutindo sobre as atitudes dos personagens. “A ética é realmente fundamental na novela. Vamos falar sobre ela o tempo inteiro, só pelo fato de expor o jeitinho brasileiro, já estamos discutindo esse tema. Se a gente quer ser um país de primeiro mundo, temos que estar preparados para o que eles têm para oferecer para nós. Estamos acostumados com o terceiro e acho que é por isso que nos encantamos quando saímos daqui”, afirmou o ator Thiago Martins que interpreta o Júlio, um rapaz humilde que participa do roubo.

A trama levanta o debate de vários temas diferentes, entre eles, as vantagens dos ricos em várias situações. Mateus Solano, que faz o mocinho de ‘Pega pega’, contou que seu personagem critica as facilidades dessa classe quando fica atrás das grades. Na história, o rapaz é preso por ser o principal suspeito de ter roubado o dinheiro do hotel. “Amei as cenas da prisão porque mostra os privilégios de um poderoso. Acho legal levantar esse assunto, ainda que de forma leve. Ele lida com o fato de ser preso injustamente, mas se indigna com essas regalias que não deviam existir, o que mostra que o Eric é um cara de carácter”, lembrou.

Segundo os participantes, um dos temas mais retratados é o ‘jeitinho brasileiro’. A denominação significa a atitude do indivíduo de sempre querer ser superior, tomando proveito de situações pequenas e insignificantes, mas que infringem a lei e a moral. “A gente questiona se vale a pena roubar, porque, às vezes, as pessoas veem os outros roubando e copiam. Acho que, no momento atual, não dá para defender ninguém. Os brasileiros têm uma cultura que nos leva a esses acontecimentos políticos. Devemos pensar duas vezes antes de subornar o guarda, jogar papel no chão… são as pequenas atitudes que fazem a diferença e a novela fala sobre isso. É quase um spin-off do Jornal Nacional”, brincou Marcelo Serrado que faz o Malagueta, funcionário que arquitetou todo o plano do roubo ao hotel. Ano passado, o ator expos sua opinião a favor do impeachment e, mesmo com os recentes fatos políticos, ele não se arrepende de defender o movimento. “Acho que meu manifesto é muito positivo. Como cidadão, todos tem o direito de falar o que pensam. Nem todo mundo, que era a favor do impeachment, queria o Temer. Sempre achei burrice as pessoas acharem que o governo dele resolveria alguma coisa, eu quero diretas já. O que está acontecendo é para provar que a Lava Jato não é seletiva”, afirmou o galã.

Marcos Caruso em cena (foto: Divulgação)

Apesar de não querer manifestar sua opinião política, Thiago Martins afirmou que consegue enxergar um paralelo muito grande entre o cenário atual e o roteiro que recebeu da novela. Para ele, não importa seu viés partidário, pois as pessoas estão acompanhando os jornais e tirando suas próprias conclusões. Apenas com isso, de acordo com o ator, já é possível ligar os temas à trama. “Todo mundo está vendo o que está acontecendo, é visível. Acho que essa novela vem com um grande frescor. O que a gente quer fazer é entretenimento, queremos que o brasileiro chegue em casa e ria conosco. E, ao mesmo tempo, pense que a vida poderia ser assim, porque senão fica tudo muito sério. Acho que o Brasil já está chato demais para a gente vir com uma novela do mesmo estilo. ‘Pega pega’ vem para fazer as pessoas pensarem que, essa sujeira toda, poderia ser engraçada”, considerou.

O Carioca Palace Hotel reúne opostos, como ricos e pobres. O ator Thiago considera que podemos imaginar que, metaforicamente, o local é a réplica do país. “São povos, classes, ideologias, atitudes, gostos e etnias que se misturam, assim como é aqui”, contou ele. E são essas diferenças expostas que o ator Milton Gonçalves, que atua como um dos empregados o estabelecimento de luxo, considera a melhor parte da novela, principalmente, quanto à questão racial. “A trama mostra todas as etnias, do amarelo ao roxo. Quando se fala do meu país, eu tenho muito orgulho. Conheço o Brasil de norte a sul e fiz tudo que poderia fazer enquanto cidadão para estimular o debate e lutar pelo povo. Politicamente, sou socialista. Sobre o que está acontecendo agora, acho que todos os grupos cometem erros ou por não perceber ou por não se dar conta. Acredito que vamos conseguir nos reencontrar com a pátria. Amo esta terra”, afirmou calorosamente.

A esperança de recuperação econômica e social é latente nos olhos de Milton assim como nas palavras da atriz Nicette Bruno, que faz a tia mais velha do personagem de Thiago Martins. Para a atriz, a trama de ‘Pega pega’ vai fazer as pessoas se questionem sobre o momento e sobre elas mesmas. “As críticas sobre ética são muito pertinentes e positivas. Tudo que se faz para demonstrar uma revolta ou um asco sobre as coisas que não são corretas é bom. Nós não temos segurança no nosso país. Estamos vivendo um momento péssimo e difícil, mas temos que ter força para suportar e ter esperança de que as coisas se modifiquem. Afinal, há um lado bom nessa história: as pessoas estão se interessando pela política. A minha expectativa é de mudança”, aconselhou a artista.

Marcelo Serrado será o vilão Malagueta (Foto: Divulgação)

As mudanças podem vir de várias maneiras e, para Marcos Caruso, a associação é uma delas. “Os ladrões que a gente retrata colocam a mão na consciência e acho que isso pode fazer as pessoas que roubam se questionarem. É possível entrar em uma crise de valores com várias vertentes, por exemplo, podemos pensar que, se todos fossem como eles, o dinheiro poderia ser devolvido”, contou o ator que interpreta o dono do hotel. No entanto, ele discorda de que a trama tenha uma relação direta com os acontecimentos políticos. “A gente não toca nas questões políticas que estão acontecendo. Falamos sobre um roubo de um hotel e nos limitamos a isso. Não acredito que exista uma metáfora que questione a vida que estamos levando. A gente não tem essa preocupação, nosso trabalho é de ficção”, contradiz o artista.



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