Jornal do Brasil

Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Heloisa Tolipan

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Evandro Mesquita sobre a volta da Blitz: "Temos uma teimosia artística"

Banda conversou com a coluna no último fim de semana, em pleno Circo Voador

Em comemoração aos 35 anos de suingue sangue bom, a Blitz voltou aos palcos do Circo Voador, no último sábado. Na ocasião, foi gravado o quarto DVD, trazendo uma mistura de rock, pop, samba, blues, funk e reggae tradicional do som deles. Além do aniversário, o grupo lança o novo álbum ‘Aventuras II’ com participações especiais de cantores famosos como Paralamas do Sucesso, Frejat, Seu Jorge, Alice Caymmi, Andreas Kisser, Pretinho da Serrinha, MC Cert, Arnaldo Brandão, George Israel, Sandra de Sá, Dadi e Zeca Pagodinho. “A gente sempre misturou gêneros musicais. Acho isso legal, porque você não identifica a banda. Juntamos tudo no liquidificador e o resultado é a Blitz. Temos teatro, diálogos, cada música pede uma roupagem”, avisou Evandro.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

A gravação ainda não tem data prevista para chegar ao mercado, mas a realização é uma parceria com Deck Disc e Canal Brasil. Para a apresentação, os feras só precisaram de quatro ensaios. O CD é lançado em um momento em que o conjunto está na estrada há 13 anos com a mesma formação de integrantes. “É um sentimento bacana poder voltar, a gente inaugurou o Circo do Arpoador e o da Lapa. Óbvio que já tínhamos feito outros shows lá depois, mas esse foi especial. A gente está lançando um disco, tem convidados maravilhosos, que começamos a chamar a seis meses atrás, por acaso. Esse espaço abre as portas tanto para os novos quantos os antigos. A gente está animado pois deu tudo certo e o povo curtiu com a gente”, contou Evandro Mesquita. A Blitz começou a sua carreira nos palcos do Circo que existia no Arpoador, no ano de 1982. Desde então, não parou mais de ser requisitada pelos brasileiros.

A voz principal é de Evandro Mesquita, que também toca guitarra e violão. Ele está no grupo desde a formação em 1982 e acompanhou de perto todas as alterações que aconteceram ao longo dos anos. Além dele, Billy Forghieri é o responsável pelo teclado, Juba pela bateria, Rogério Meanda pela guitarra, Cláudia Niemeyer pelo baixo, Andréa Coutinho e Nicole Cyrne no backing vocal. Durante toda a carreira, a Blitz se consagrou como um dos grupos mais famosos do Brasil tocando em outros países como EUA, Portugal e Japão. A produção gráfica do novo disco é feita por Gringo Cardia, que foi o responsável pela arte do primeiro álbum da banda.

O som de Blitz recebeu várias vozes diferentes ao longo de sua trajetória. Fernanda Abreu, Marcia Bulcão e Lobão já participaram da banda e contribuíram para transformá-la neste sucesso incontestável. “Acho que a quantidade de pessoas que já passaram pela Blitz contribuiu para que o som fosse tão maneiro. Estou com a mesma formação há treze anos, o som está bacana, estamos tocando com prazer. Juntamos músicas novas com hits. O show está bem variado, tem um repertório grande. Estamos tocando o que as pessoas querem ouvir e o que estamos fazendo agora”, explicou Evandro. Além do cantor, Billy Forghieri é o único integrante que participou do momento da criação do conjunto.

Para Evandro, é natural que isso aconteça em um grupo numeroso. “Banda é como um casamento. Se com dois já é difícil, imagina como é lidar com mais que o triplo. Precisamos ir equilibrando as coisas. Sempre falo que temos que deixar de pensar nas ‘bodas de ouro’ e aproveitar o momento. Amizade e parceria são essenciais nessa relação”, contou. Segundo o cantor, é importante que os integrantes não almejem apenas prêmios e momentos importantes como lançamentos de álbuns. É preciso se dedicar à causa e curtir o som.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Blitz nasceu no mesmo lugar que o Barão Vermelho. Na época, o estilo de música da banda não era muito requisitado pelo público. O underground carioca não tocava muito nas rádios locais. “A gente queria agradar a rapaziada da praia. Ficávamos o dia todo ali e depois íamos fazer o show. Nossos amigos não se viam representados pelos músicos que tocavam nas rádios. Queríamos que a galera tivesse orgulho da banda. Tentávamos conquistar um espaço que o underground não tinha, furar um bloqueio que existia. Nessa época, esse gênero estava aflorando muito nas ruas, o povo queria ouvir”, afirmou. O sonho da banda era tocar nas emissoras de TV e ter uma gravadora que gostasse do estilo diferente. “A gente não sabia que ia chegar tão longe e estar no coração de tanta gente. Virou realidade”.

Atualmente, a Blitz tem se apresentado menos, mas Evandro afirma que isso não é algo ruim, já que o gosto por gêneros é cíclico. “Acho que o momento atual está parecido com quando a gente começou. Nada que tocava no rádio a gente curtia. O Brasil tem uma variedade de opções como axé, funk, pagode, rock e outros. Cada hora, um gênero musical se destaca mais que o outro. Mas a gente continua na estrada sentindo prazer em tocar, isso é o que importa. Amamos o que fazemos. É legal mantermos a nossa personalidade e não mudarmos conforme a demanda do momento. Temos uma teimosia artística”, explicou.

O primeiro sucesso foi ‘Você não soube me amar’, uma música que perdura até hoje no imaginário das pessoas. “A primeira vez que ouvi no rádio, estava no fusca da minha tia perto do Balada Mix, no Leblon. Todos estavam escutando a gente. Era uma coisa inusitada, fiquei emocionado por estar me escutando. Depois disso não paramos mais. Atingimos o subúrbio, as boates chiques do Rio e São Paulo e a criançada”, lembrou Evandro. A canção tocou, inicialmente, na Rádio Cidade, uma das mais importantes do país naquele momento, e ela foi responsável por lançar a banda. “Costumo falar que música boa não tem prazo de validade. Até hoje as pessoas falam da gente. Seja no Nordeste ou no Sul do Brasil, todos nos recebem com muito carinho. Dá muito orgulho. Já tocamos no Japão e na Rússia. Achávamos que o nosso limite era a praia. Estar agora, trinta e cinco anos depois, emocionando as pessoas é muito bom”, finalizou.

Em 1982, o Brasil estava passando por uma ditadura militar que só terminou três anos depois. Na época, vários artistas, como Chico Buarque e Geraldo Vandré, tiveram suas músicas censuradas. Apesar de Blitz não ser um dos nomes principais quando o tema é ditadura, a banda sofreu com o período. “Nosso primeiro disco teve três músicas censuradas, ‘Cruel, cruel’, ‘Ela quer morar comigo na lua’ e ‘Esquizofrenético blues’. E elas fazem parte do repertório do DVD. Ficamos muito chateados quando isso aconteceu, pegamos pregos e riscamos a parte do vinil que tocava essas canções. Todos saíram assim, com essa marca, para as pessoas verem que tinha algo a mais e tínhamos sofrido uma agressão na nossa arte. As lojas venderam muita agulha de vitrola porque o público queria saber o que tocava naquela parte do disco e, por isso, acabava estragando o equipamento. São cicatrizes da estrada”, afirmou Evandro, rindo sobre a sua forma de protesto contra o regime.

Evandro completou que a ditadura em nenhum momento o fez desistir de cantar. Apesar da banda ter nascido em um período conturbado da história, ele nunca sofreu por isso. “Naquela época, a gente achava que era invencível. Eram tempos de descobertas sexuais, de drogas, queríamos entender o futuro. Nos shows a gente cantava, falava palavrões. Já terminamos vários shows no Circo com a PM mandando a gente sair do palco, porque algum desembargador mandava. Sempre tentávamos convencer de tocar mais uma”, brincou. Ainda lembrou que, recentemente, precisou terminar um show antes do momento previsto. Mas o motivo era completamente diferente. “A polícia pediu para terminarmos o som porque estava atrapalhando os moradores, na Praia do Forte, na Bahia”.

O cantor afirma que o conjunto nunca teve a intenção de escrever músicas que necessariamente denunciassem algo. “Todas as nossas músicas são uma espécie de crônica do cotidiano, refletem o que estávamos vivendo. Mas não era nada óbvio ou didático. Usávamos o humor para falar de algo sério. Não há algo explicito, mas falamos nas entrelinhas. No começo, queríamos dialogar com a nossa rapaziada. Queríamos disfarçar algumas mensagens com coisas que só a gente entendia para driblar a censura”, completou. ‘Você não soube me amar’ é a canção favorita dele por ter sido o cartão de visita do grupo. “Nenhuma outra é tão especial quanto esta música”, afirmou. Além dela, ‘A dois passos do paraíso’, ‘Betty frígida’ e ‘Mais uma de Amor – geme, geme’ são as outras queridinhas do artista.

Em setembro, Blitz volta a tocar no Rock in Rio. A banda participou de várias datas do evento, inclusive da inauguração. Apesar das críticas feitas a diversidade de gêneros musicais que existe hoje no repertório, Evandro acha isso algo positivo. “O festival tem que ser algo grande mesmo. Virou um grande parque de diversões musicais. Não precisa segmentar, apenas é necessário ter bom gosto. Se a pessoa é boa, não importa o gênero. O mais importante é o encontro de toda a galera”, sugeriu.

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