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Exclusivo: Paulo Borges fala sobre novo calendário da moda e o poder da classe C

"Tem mais gente competindo pelo mesmo bolso. A classe C quer ser B, quer ser A", diz

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Enquanto posta fotos da imponente ambientação da entrada desta 33ª edição da São Paulo Fashion Week no Instagram, Paulo Borges já pensa na próxima edição das principais semanas de moda do país. A mudança no nosso calendário fashion já começa daqui a quatro meses e em outubro teremos mais uma rodada de desfiles. As datas ainda não foram definidas, mas a SPFW deve rolar no final de outubro, fora do prédio da Bienal, e o Fashion Rio, no início de novembro.

Em um bate-papo exclusivo, Paulo nos contou como anda o cronograma da moda nacional, explicou como rolou a parceria com Marcelo Rosenbaum no projeto A Gente Transforma (que é o tema desta edição da SPFW), o que pensa sobre a divisão entre moda comercial e conceitual, a ascensão da classe C e os planos para 2013, incluindo o Movimento Hot Spot e um projeto sobre os negros do Brasil.

Heloisa Tolipan: Como será esta próxima edição do Fashion Rio e da São Paulo Fashion Week?

Paulo Borges: Os desfiles em outubro serão só para acertar o calendário. Será uma edição menor e a São Paulo Fashion Week não vai estar na Bienal, que já está ocupada com a Bienal de arte na segunda quinzena de outubro, quando deve ser realizado o nosso evento. Muitas marcas farão seus desfiles em showrooms. E o Fashion Rio deve ser no início de novembro, porque como recebemos o apoio tanto da Prefeitura de São Paulo quanto do Rio, precisamos esperar as eleições passarem, por conta das leis eleitorais.

Ainda estamos procurando lugares em São Paulo e no Rio, mas recebemos um bom retorno desta edição do Fashion Rio lá no Jockey Clube. Ficou mais butique, todo mundo gostou.

HT: Nesta edição do Fashion Rio, comentou-se que cada vez mais, estamos vendo menos conceito e mais coleções comerciais. Você concorda?

Paulo: Cada marca tem o seu eixo de necessidade. O Fashion Rio sempre foi muito mais comercial, desde o início. Conseguimos realinhar e readequar as marcas do line-up. O resto do mundo da moda sempre foi mais empírico e conceitual, enquanto o Fashion Rio mantinha a verve comercial.

Mas agora, o mundo está mais comercial. O discurso é esse porque é o consumidor quem manda. Não que ele não tivesse voz antes, mas é ele quem controla a informação hoje em dia. Ele observa tudo o que a imprensa mostra, deglute e orienta a indústria com o que ele está desejando.

HT: O que você pensa sobre a ascensão da classe C e todos os holofotes voltados para ela?

Paulo: Agora tem mais gente competindo pelo mesmo bolso. Essa história de que a classe C é a nova classe de consumo é a novidade da vez, mas ninguém sabe o que ela realmente quer. Ela quer ser B, ser A.

O governo não tem nenhum plano para a classe C. O cenário atual é consequência do que estava sendo feito, desde que o FHC era ministro, depois quando ele foi presidente e deixou um cenário favorável para o Lula. Mas isso tudo é imediatista. Ao invés de criar uma estratégia para o futuro, estão trabalhando para o presente da nova classe C.

HT: Quais são os projetos para a moda no ano que vem?

Paulo: Estamos focados no Movimento Hotspot e estendemos o calendário dele até agosto, porque a premiação final seria em março, no meio do novo calendário das semanas de moda. O tema desta edição da SPFW, aliás, tem relação com esse projeto. Chamei o Marcelo Rosenbaum pra ser curador do Movimento Hotspot, ele topou e disse que queria a minha opinião sobre um projeto que ele queria exibir em uma ‘paredinha’ da SPFW. Mostrou o A Gente Transforma, passei duas semanas olhando aquilo e percebi que aquele deveria ser o tema. Tema é uma pauta, uma coisa que deve ser discutida e, pela primeira vez, o tema é o presente. A sustentação, a criação, tudo no presente. A gente está vivendo o tema: cria, mostra e vende o produto. (As peças criadas pela comunidade de Várzea Queimada, no Piauí, estão à venda venda na loja Pop Up SPFW, montada no primeiro andar do prédio da Bienal)

HT: E qual é a verdadeira mão que transforma?

Paulo: É a mão de todos que não ficam na zona de conforto. É o estilista que cria uma nova imagem, a empresa que busca novas maneiras de distribuição e acredita que a sustentabilidade já é irreversível.

HT: Como anda o projeto do seu livro sobre os negros no Brasil?

Paulo: Para mim, nada é uma coisa só. Além do livro, faremos uma exposição, um documentário e um circuito de discussões sobre a situação do negro no país. No documentário, vou misturar realidade e ficção. Venho com Gilberto Gil, Margareth Menezes e encontrei, na Bahia, um menino muito pobre que quer ser muito importante, como todos eles já quiseram ser. 

O negro da Bahia é pobre, excluído, energético, espiritual, ancestral e excluído da sociedade. E o Estado vem tendo sucessivos governos que negligenciam essa ancestralidade e acabaram destruindo-a. 

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