A Fliporto 2011, em Olinda, chegou ao fim, na última terça feira, com números respeitáveis. Em cinco dias, de 11 a 15 de novembro, a Festa Literária Internacional de Pernambuco recebeu mais de 80 mil pessoas, público 33% superior ao do ano passado. Entre os visitantes, a aprovação foi de 94%. Não obstante, a movimentação na economia local superou R$ 10 milhões, principalmente nas áreas gastronômica, hoteleira e editorial.
A programação literária teve 46 autores e convidados, que participaram de 20 painéis na Tenda do Congresso Literário. A Feira do Livro teve mais de 15 mil exemplares vendidos. Tal cenário confirma o resultado da enquete realizada no último mês no site do Jornal do Brasil, em que os 76,5% dos leitores votantes considera que, sim, a Fliporto se tornou o maior festival literário do país em números absolutos.
O evento teve novamente a curadoria geral de Antônio Campos e, no âmbito literário de Mário Helio Gomes. A Fliporto Nomes de peso da literatura internacional cruzaram o oceano para estar em Pernambuco. Entre os destaques, o indiano Deepak Chopra, o palestino Abdel Bari Atwan, que nos anos 90 entrevistou o terrorista Osama Bin Laden, o caribenho Derek Walcott (vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1992), a libanesa Joumana Haddad e o português Gonçalo Tavares.
A Festa também trouxe ao público o Cine Fliporto, segmento voltado para o cinema, que homenageou os cineastas Guel Arraes e Tizuka Yamasaki, com curadoria do crítico de cinema Alexandre Figueirôa.
A a transmissão ao vivo das mesas principais através do site oficial (TV Fliporto), em muito expandiu os limites da festa literária.
A Casa Brasil
A participação da Casa Brasil, com seu espaço temático no Mercado da Ribeira foi um dos destaques da programação em Olinda a começar pelo seu primeiro evento, a vernissage da exposição “Caminho do Sol Nascente” de Christina Oiticica, uma noite prestigiada por nomes como o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, o curador da Fliporto, Antônio Campos, a deputada federal Ana Arraes, o prefeito de Olinda, Renildo Calheiros, e o cineasta Nelson Pereira dos Santos.
Primeira exposição de Christina no Brasil em quase uma década, teve como destaque as obras que a artista enterrou ao longo do Caminho de Kumano Kodo (Japão) em 2009. O governador Eduardo Campos ressaltou a importância do estado receber a mostra de uma artista tão renomada. Ao fim da mostra, Christina estava exultante com o público que prestigiou a abertura.
Em alinhamento com o tema da Fliporto, “Uma Viagem ao Oriente”, o coquetel de abertura, preparado pela Chef e consultora do site Gourmetidos, Fernanda Cademartori, teve apenas culinária oriental, com destaque para várias receitas de sushi e finger foods orientais como pato ao sweet chily teriaki, costelinha de porco ao tonkatzu, e mini cups de camarão com redução de maracujá. Dois dias depois ela realizou palestra/degustação sobre os hábitos gastronômicos dos países Asiáticos e Africanos banhados pelo Mar Mediterrâneo com pratos de origem Al-Andaluz, como cuscuz de milho, mousaka e purê de gerimum.
Durante a vernissage houve uma apresentação de "Tenchi Tessen", do grupo do Mestre Otto Neweschwander, arte criada pelo Mestre Georges Stobbaerts a partir de influências da mitologia oriental. Ele também realizou uma palestra no dia 14.
A estruturação local da Casa Brasil, teve a participação da Musicata Cia de Arte, das produtoras Virgínia Cavalcanti, Jéssica Soares e Adriana Araujo. Na ambientação e ornamentação com motivos orientais, a Casa Brasil também contou com o artista pernambucano, radicado em Nova York, Tony Pedrosa.
No segundo dia de Fliporto, Christina Oiticica voltou a Casa Brasil para um bate-papo com o público sobre como foi o insigth que a levou, no início da década passada, a enterrar suas obras em locais simbólicos. Ao seu lado estava Patrícia De Luna, autora do livro “Contando a Arte de Christina Oiticica”.
A Casa Brasil também recebeu dois membros da Academia Brasileira de Letras, o escritor e educador Arnaldo Niskier e o cineasta Nelson Pereira dos Santos.
Niskier, que fez a palestra “Gilberto Freyre e a Pedagogia os Trópicos” no sábado, 12 de novembro, buscou na obra do antropólogo pernambucano as explicações para o ainda baixo padrão da educação brasileira. Explicou que o país é, de fato, uno em função da língua portuguesa, ensinada pelos jesuítas durante o período colonial. Esta unidade, contudo, não foi suficiente para que grupos étnicos, como índios e negros, fossem respeitados. “O analfabetismo ainda é gigantesco, sendo o perfil do pais formado por 14 milhões de analfabetos e 50 milhões de semianalfabetos.”.
Nelson Pereira dos Santos, ao lado de Sonia Freyre (presidente da Fundação Gilberto Freyre e filha do homenageado da Fliporto), falou sobre a série de documentários Casa Grande Senzala, que está sendo lançada em DVD. Uma das curiosidades abordadas foi como Nelson chegou à conclusão de ter o escritor Edson Neri representando o próprio Gilberto Freyre. Neri havia sido uma importante fonte de pesquisa para Nelson Pereira dos Santos, que percebeu que o escritor dominava o livro Casa Grande e Senzala a ponto de recitá-lo inteiro.
A obra de Gilberto Freyre também foi a tônica das apresentações de Gilberto Freyre Neto e e do arquiteto e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Tomaz Lapa. Freyre Neto colocou, a partir de observações de viagens que fez a países orientais como determinados hábitos, trazidos pelos colonizadores portugueses – e que tinham portos orientais na África e na Ásia como destinos freqüentes, além da influência moura – se internalizaram na formação do povo brasileiro, no comportamento e na alimentação.
Tomaz Lapa explorou a influência islâmica pelo viés arquitetônico. Mostrou diversos exemplos de traços orientais nas construções brasileiras do período colonial, incluindo estética, azulejaria e forma de construir.
A programação teve também, na segunda-feira, a palestra “A espiritualidade oriental”, com o filósofo Marcelo Pelizzoli, com participação do psicólogo Eduardo Mousinho.
Presente pela primeira vez na Fliporto, onde autografou seu livro “Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum”, a pesquisadora e pós-doutora Stefania Chiarelli resumiu bem o caráter da Fliporto 2011: "Acredito que a experiência foi muito positiva, pois pude perceber umatroca interessante de conhecimentos nas palestras e nas mesas daprogramação. A mistura entre o conhecimento acadêmico mais estrito e a participação de escritores e intelectuais oriundos de outros campos do saber me pareceu muito rica e estimulante. O diálogo com o Oriente igualmente me pareceu um recorte estimulante, por oferecer um viés rico para a reflexão sobre temas que abrangem de forma única nossa cultura, por si só híbrida e vária."