Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Flip 2011

Para escritores independentes, festa literária não passa de um evento comercial

Jornal do BrasilLuisa Bustamante

Em sua 9ª edição, a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2011, parece ser o momento ideal para que os autores independentes divulguem seu trabalho. No entanto, parece que há algumas divergências. Ainda que o momento pareça propício, muitos desses autores cortam um dobrado para conseguir a atenção do público intelectual nas ruas.

É o caso de Giovani Baffo e Berimba de Jesus, dupla de poetas bem humorados que tentam vender seus exemplares na força do boca a boca. "As pessoas são muito pouco curiosas com os autores independentes", lamentou Giovani, enquanto abordava os transeuntes.

Para Roberto di Cássia, poeta mineiro que vem todos os anos de Campinas (SP) para divulgar seu trabalho durante o festival, a Flip é um momento importante porque reúne  muitas pessoas interessadas em literatura. Mas o escritor protesta que os autores independentes tenham tão pouca visibilidade.

"Eu mudaria o nome da Flip para 'festival de divulgação das grandes editoras e da literatura de elite do Brasil em Paraty'", disse. "Os autores independentes ficam aqui fora, mas, na verdade, também devíamos estar lá dentro".

Roberto di Cássia lamenta pouca visibilidade de escritores independentes
Roberto di Cássia lamenta pouca visibilidade de escritores independentes

Mesmo com as dificuldades, muitos ainda encontram alento no festival. Para Fernando Rocha e Marinalva Bezerra, casal de escritores paraibanos que divulga literatura de cordel há três anos na Flip, a receptividade do público é o melhor ingrediente da festa.

"Ainda falta um dia para terminar o evento, e já estamos muito perto de superar as nossas expectativas", comemorou Fernando. "Trouxemos 14 títulos nossos e agora só restam 6".

"A Flip é uma porta escancarada para divulgarmos nosso trabalho para o mundo", completou Marinalva. "Com essa oportunidade, a perspectiva de que a literatura continue forte é muito maior".

Com visual inusitado, Fernando Rocha e Marinalva Bezerra divulgam a literatura de cordel em Paraty
Com visual inusitado, Fernando Rocha e Marinalva Bezerra divulgam a literatura de cordel em Paraty

O escritor Paulo Cavalcante é um exemplo da resistência dos autores independentes ao pouco incentivo à cultura que perdura no país. Paraibano, Paulo junta suas economias todos os anos para custear sua viagem à Flip. Durante os quatro dias de evento, se veste de cangaceiro e fica cerca de 12 horas por dia em pé sobre dois tamancos gregos  para chamar atenção do público.

O esforço valeu a pena: hoje Paulo divulga a sexta edição do seu primeiro romance regionalista, O martírio dos viventes, que conta a história de uma família tentando sobreviver a uma seca de 21 meses que castigou o sertão nordestino em 1992 e 1993.

"Sou filho de camponês, já fui office-boy, garçom, porteiro, cozinheiro, tudo isso sempre estudando", contou. "Levei oito anos para terminar este livro e hoje já comecei a trabalhar em um novo". 

O "cangaceiro" Paulo Cavalcante e o seu romance "O martírio dos viventes'
O "cangaceiro" Paulo Cavalcante e o seu romance "O martírio dos viventes'

Tags: autores independentes, flip 2011

Comentários

4 comentários
  • SEBASTIÃO EPAMINONDAS DA SILVA, Niterói
    SEBASTIÃO EPAMINONDAS DA SILVA, Niterói

    O mercado é o caminho de toda criatura e homem moderno. A festa literárea é uma pequena verdade que seus organizadores tiveram. Talvéz não se saiba quem teve essa grande idéia de fazer na pacata e feliz cidade de Paratí-RJ.

    Sebastião Epaminondas ........

  • Francesco Sinibaldi, Italie
    Francesco Sinibaldi, Italie

    La juventud de la palidez.

    El sol duerme
    en la eternidad
    de un cielo
    cristalino como
    un grupo de
    rosas que recuerda
    silente la voz
    de la vida.

    Francesco Sinibaldi

  • Dr. Edmar Benardes DaSilva, Luz MG Brasil
    Dr. Edmar Benardes DaSilva, Luz MG Brasil

    Concordo com tudo dito no artigo. Esses eventos são só para promover editoras e seus escritores (muitos deles não tão bons assim). Sou um escritor e poeta independente e publiquei o meu primeiro livro em 1996 (porém escrevo desde menino). Já publiquei quatro livros. Visitem o meu blog de literatura: http://dredlinguaportuguesa.blogspot.com/

    Está na hora do Jornal do Brasil nos ajudar.

  • Hebe de Carvalho, Paraty/RJ
    Hebe de Carvalho, Paraty/RJ

    Realmente, a FLIP foi feita para a elite, os escritores independentes não têm muita chance de mostrar seus trabalhos.A própria população da cidade, em sua grande maioria, pobres, nem pensam em participar das tendas dos autores pois os ingressos são caros.Sofremos também com os preços abusivos em geral, tudo é muito caro.Pagamos pela fama da cidade.

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