Jornal do Brasil

Domingo, 27 de Maio de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Santander, a espoliação consentida

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Em nossa edição de ontem, mostramos com os próprios números disponibilizados pelo banco Santander, da espanhola Ana Botin, o escárnio que seus lucros representam para a economia brasileira, provando que somos a “melhor nação” para se ganhar dinheiro à custa, não de saudável intermediação financeira entre os que poupam e as empresas que querem investir para criar riquezas e, também, do consumidor que deseja comprar um bem e melhorar seu padrão de vida. Mas à custa de, no Brasil, permitirmos que a instituição espanhola pratique agiotagem legalizada. E, claro, prática sem relação alguma com a imprescindível intermediação financeira, como existe em países civilizados e que vivem em economia de livre mercado. 

Em nenhuma economia no mundo, país algum pode viver sem a atividade bancária. Em absoluto. Mas apenas o Brasil não possui bancos; aqui temos, sim, agiotas legalizados. Os números apresentados pelo Santander provam isso. 

O Santander e, certamente, os balanços que virão dos outros três bancos brasileiros que controlam 70% do crédito do país não obtêm lucro em sua atividade precípua, ou seja, intermediar dinheiro. Aqui, os bancos, ganham dinheiro, exclusivamente, pela permissividade do Estado brasileiro, por incentivar, ao longo dos últimos 20 anos, a criação de um oligopólio que, sem concorrência, cobra, legalmente, taxas de até 20% ao mês de quem produz e trabalha. Ou seja, um sistema de agiotagem legalizado.

O balanço publicado pelo Santander envergonha. Seremos motivo, no mundo inteiro, de chacota entre as nações desenvolvidas, pois nada justifica o que ganha esse banco no Brasil. Nada! Salvo, reiteramos, a permissividade e a falta de patriotismo dos governos para combater essa gente que não faz bem ao país. Não pensem, contudo, que o “lucro criminoso” alcançado pelo banco espanhol ficará restrito à sua “competência”. Em breve, mostraremos aqui, que Itaú e Bradesco, os outros dois que dominam o mercado, seguirão o “exemplo” do Santander, mostrando os mesmos lucros “ilegais e criminosos” contra a economia nacional e o povo brasileiro. 

Como e por que o Santander obteve 27% do seu lucro mundial em território brasileiro? Como o banco espanhol conseguiu essa proeza? Como obteve tal “lucro criminoso” em um país cuja economia não cresce e o Estado nacional não possui recursos sequer para educar crianças e jovens em boas escolas, muito menos saúde para seus habitantes? Em primeiro lugar, por participar do oligopólio bancário, “jabuticaba brasileira”. Em segundo, em decorrência, por praticar taxas de juros que são, simplesmente, crimes de lesa-pátria, ao sugar, como vampiros, o sangue nacional, que produz e trabalha. 

Não há resposta “técnica” para as taxas e tarifas “criminosas” praticadas pelo Santander. As taxas são altas por que a inadimplência é alta? Mentira! O índice de mau pagadores no Brasil é expressivamente menor que na Espanha! As taxas de agiotagem praticadas pelo Santander são extorsivas por causa dos “altos impostos” sobre o lucro? Mentira! Os impostos brasileiros são menores que na Espanha. O resultado ilegal obtido no trimestre prova o contrário, pois foi aqui que o Santander obteve seu maior lucro, entre todos os países onde opera. Não há resposta técnica, muito menos moral, para se cobrar “criminosa” taxa de 14% de juros ao mês do trabalhador brasileiro. Na Espanha, 4% ao ano! Gostaríamos de ver o que aconteceria com o banco da sra. Ana Botin se o Santander cobrasse de seus compatriotas, na Espanha, as mesmas taxas que seu banco cobra dos brasileiros. Gostaríamos de ver... Infelizmente, aqui não recebemos dos imigrantes espanhóis como herança a mesma coragem que tiveram seus compatriotas em tantos momentos de revolta na Península Ibérica. Pelo menos até este momento. 

Mas existe uma razão clara e objetiva para explicar esse “lucro criminoso” obtido pelo Santander: a nação e os brasileiros permitem e, pior, não reagem! Se reagíssemos, a história seria outra, com certeza. Em qualquer parte do mundo onde se pratica o sistema capitalista, a população e as empresas já teriam deixado de pagar dívidas ao banco, forçando a paralisação de suas atividades, tendo, como lastro para uma “desobediência devedora”, o crime de lesa-pátria, praticado pelo Santander contra a economia popular e contra toda a nação brasileira. Se o Congresso não nos defende da usurpação, temos certeza de que a Justiça acolheria o drama que vivemos, com a exploração dos três bancos que praticam agiotagem contra milhões de brasileiros e à economia nacional. 

Não há outra razão para que o país permita essa relação de espoliação, que não seja o conluio das autoridades brasileiras com as três famílias que dominam o oligopólio bancário. O Banco Central lava as mãos, até porque, como já se disse aqui, seus presidentes são, sempre,  funcionários dos “três irmãos” (Itaú, Bradesco, Santander), tal como é o atual Ilan Goldfajn, ex-funcionário do Itaú. Sem falar do Congresso Nacional, que, ao não fazer leis que proíbam a “atividade criminosa” praticada pelo sistema bancário, incluindo Banco do Brasil e Caixa Econômica, permite esse escárnio. O silêncio do Congresso ainda é mais grave, pois ali devíamos encontrar eco e esperar por efetiva medida para coibir, por lei, de uma vez por todas, essa onda de “crimes” praticados pelo sistema bancário nacional contra as empresas, contra o cidadão e, principalmente, contra o Estado nacional. Sim, pois se apresentamos o maior déficit orçamentário da história, se mostramos a falência da saúde, da segurança pública e da estagnação da economia, o motivo principal foi a transferência, nos últimos 20 anos, de centenas de bilhões de reais para o sistema bancário e rentistas, que chegaram a receber do governo as inacreditáveis taxas de até 40% ao ano (governo Fernando Henrique, com Armínio Fraga, presidente do Banco Central). 

E não nos iludamos com colorações ideológicas de quem está ou esteve no poder:  as mesmas taxas exorbitantes também foram praticadas pelas administrações do PT, que, aliás, permitiu que o oligopólio se consolidasse com a compra pelo Itáu, Bradesco e Santander, de diversos outros bancos que operavam no país, consolidando o poder que possuem, hoje, essas três instituições, que formam o oligopólio e dominam o crédito no Brasil.   

Não satisfeitos com a exploração direta, esses bancos ainda tiveram perdão, pelo Carf, de dívidas fiscais na ordem de R$ 40 bilhões. Só o Itaú foi perdoado em R$ 25 bilhões no ano passado! O presidente do Bradesco foi formalmente denunciado pelo Ministério Público. E não se fala mais nisso... Voltaremos, em outra oportunidade para falar sobre o escândalo. 

O resultado dessa “ação criminosa” entre o oligopólio bancário contra quem produz e trabalha estará sem solução caso os brasileiros não reajam na Justiça. E, se for o caso, paralisando até mesmo o fluxo de pagamento para os bancos. Porque, por bondade e consciência cívica, os bancos brasileiros e seus acionistas controladores não deixarão de praticar a agiotagem legalizada; pois bondade e consciência são valores que os banqueiros não têm na alma.



Tags: banco, economia, editorial, jb, santander

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