Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Economia

Brasil precisa reativar políticas contra a miséria, defende José Graziano da Silva

Em entrevista exclusiva a Lenise Figueiredo, diretor-geral da FAO faz alerta

Jornal do Brasil LENISE FIGUEIREDO, lenise.figueiredo@jb.com.br, Correspondente

ROMA - O brasileiro José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), está no seu segundo mandato à frente do organismo da ONU, obtendo na sua reeleição o maior número de votos da história da agência - 177 dos representantes de 182 países. Agrônomo, professor e escritor, José Graziano foi ex- ministro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva quando ajudou a criar o programa Fome Zero no Brasil. Com o sucesso do programa, Lula fez, pessoalmente, campanha junto aos chefes de Estado em todo o mundo para eleger Graziano para o mais importante órgão internacional de combate à fome e à desnutrição da humanidade. 

Desde que assumiu a posição como diretor geral da FAO, Graziano da Silva promoveu grandes mudanças dentro da organização. Definiu o foco da agência com o objetivo de erradicar completamente a fome e a desnutrição até 2030. Um  desafio diante da demanda alimentar de 7,3 bilhões de pessoas que habitam o planeta, sendo que 800 milhões de pessoas, a maior parte na zona rural, não tem o que comer. A cada 3-4 segundos se registra uma morte por fome no mundo. 

No Brasil, a partir de 2014 a crise econômica fez dobrar o número de pessoas em condição de miséria extrema. Segundo o IBGE, essa crítica situação atinge 13 milhões de brasileiros. José Graziano defendeu ao JORNAL DO BRASIL na sede da FAO, a reativação de políticas públicas de combate à miséria.

José Graziano, diretor geral da FAO, da ONU

O mundo produz comida suficiente? Como a fome ainda é uma realidade?

No passado, o problema da fome era vinculado à falta de alimentos, sobretudo no contexto do pós-guerra, quando os sistemas alimentares foram arruinados. Com a “Revolução Verde” dos anos 1960, o mundo conheceu um aumento exponencial da produtividade, com alto emprego de fertilizantes e pesticidas. Como resultado, passamos a produzir mais do que o suficiente para alimentar a todos; hoje, estima-se que cerca de um terço dos alimentos produzidos é perdidos ou desperdiçado. Podemos, assim, dizer que agora o problema se concentra no acesso aos alimentos, sobretudo em razão de três fatores. 

O primeiro são os conflitos armados. A edição de 2017 do Relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no mundo, produzido pela FAO e parceiros, indica que 60% das pessoas sofrendo de fome vivem em regiões sob conflito armado, especialmente no continente africano. O segundo são os impactos da mudança do clima, como maior intensidade de secas prolongadas e inundações. A maior parte das pessoas que sofre de fome vive no meio rural. São agricultores familiares, pastoralistas, pescadores artesanais e extrativistas. Muitos deles ainda em atividades de subsistência. Os impactos da mudança do clima estão afetando os meios de vida dessas pessoas de forma extremamente negativa. O terceiro fator é a pobreza, sobretudo a pobreza extrema, aquela que impede os cidadãos de produzir ou comprar alimentos, especialmente em um quadro de recessão econômica e desemprego. 

Mais de 800 milhões de pessoas - a maior parte na zona rural - não têm o suficiente para comer. O que está sendo feito para enfrentar esse desafio, no campo e nas grandes cidades?

Um conjunto de políticas sociais eficazes pode ser plenamente capaz de garantir condições adequadas de vida às famílias mais pobres que enfrentam – no campo ou na cidade – as situações de conflito ou adversidades do clima. Para salvar vidas, temos que proteger, sobretudo, os meios de vida, para que não fiquem eternamente dependentes de ajuda humanitária. É a velha máxima de não apenas dar o peixe, mas, principalmente, ensinar a pescar. No caso da agricultura, os programas de compras governamentais de pequenos produtores, a concessão de crédito para esses mesmos agricultores e a criação dos bancos de sementes fazem parte desse conjunto de políticas que ajudam a enfrentar tal desafio. Os centros urbanos, antes referências como locais de geração de emprego, hoje se encontram estagnados. O maciço desemprego nas cidades grandes e médias se deve tanto a medidas econômicas recessivas, de austeridade, quanto à própria transformação tecnológica nos setores da indústria e do comércio, que eliminaram alguns importantes postos de trabalho. Nas periferias dos grandes centros urbanos, temos visto o crescimento de empregos precários no setor informal e temporários. Ao desemprego, soma-se outro grande desafio a ser superado nas grandes regiões metropolitanas: a obesidade. Trata-se da outra face da má nutrição. O consumo de alimentos rápidos, baratos e ricos em açúcares e gorduras tem se tornado uma tendência nos meios urbanos. Isso é preocupante, porque envolve uma questão séria de saúde pública, já que a obesidade leva ao aumento da propensão à hipertensão, doenças cardiovasculares e diabetes.  

Segundo a declaração da Unicef, no ano passado, 1,4 milhão de crianças de países africanos correm o risco iminente de morrer de fome. Como reverter essa situação? 

A África é a nossa grande preocupação. É importante lembrar que grande parte dos conflitos armados violentos ocorre naquela região. Quando aos conflitos se somam os efeitos da mudança do clima, como acontece principalmente na região do Sahel, os efeitos para a insegurança alimentar são extremamente danosos. Nesse contexto, em meados de agosto, visitarei o Níger, acompanhado pelos outros dois diretores das agências da ONU sediadas em Roma, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo para o Desenvolvimento da Agricultura (FIDA). Queremos lançar um apelo conjunto à comunidade internacional com o objetivo de potencializar as ações conjuntas das três agências no país e para todo o Sahel. O Níger é o típico caso de país que sofre gravemente de insegurança alimentar, com secas prolongadas, desertificação, além de surtos de peste provocados por lagartas, sem falar nos conflitos. Em relação às crianças africanas, a FAO tem estimulado a consolidação de programas de alimentação escolar, em modelo que ficou muito conhecido no Brasil e que foi replicado para vários países da América Latina e do Caribe. Países como Moçambique, por exemplo, já utilizam esse modelo, com apoio da FAO. Trata-se de um modelo que, na verdade, é um círculo virtuoso: as crianças se alimentam dos produtos oriundos do mercado local, no qual os pequenos produtores e agricultores familiares têm a possibilidade de vender seus produtos por um preço justo ao governo, que então destina os alimentos para as refeições nas escolas. Uma difusão maciça desse modelo evitará seguramente o aumento da fome e desnutrição infantil naquele continente.

Como o senhor avalia a política internacional de combate à fome? As nações desenvolvidas colaboram efetivamente no combate à fome?   

Os países desenvolvidos fornecem há décadas o que se conhece por “Ajuda ao Desenvolvimento”, que consiste na doação direta aos países mais pobres, ou no financiamento de projetos, com juros baixos e prazos esticados. Há, inclusive, uma meta recomendada pela ONU para que os países ricos destinem 0,7% de suas economias para a política oficial de ajuda ao desenvolvimento. Mas essa ajuda foi muito criticada porque, em muitos casos, estava atrelada a interesses comerciais. Nos últimos anos, os países doadores procuram na FAO a parceria ideal para a cooperação trilateral. São projetos triangulares. Temos, por exemplo, parcerias da FAO com Reino Unido na Etiópia, com o Japão no Senegal, ou com a Espanha na Guatemala. A ação triangular é uma tendência crescente no campo da cooperação internacional. O mesmo acontece no campo da Cooperação Sul-Sul trilateral, quando, por exemplo, Brasil e Chile unem esforços para ajudar o Haiti.

Qual foi o maior resultado do programa Fome Zero que o senhor implantou em 2003 no Brasil?

O grande mérito do programa Fome Zero foi mostrar que muitas pessoas não tinham acesso aos alimentos simplesmente porque não tinham dinheiro para comprá-los. Isso porque não tinham emprego, emprego de boa qualidade, ou ganhavam salários muito baixos. Como legado, o Fome Zero comprovou que é possível, sim, a erradicação da fome. Para tanto, é preciso uma gestão articulada de diversas ações e programas sociais do governo, desde educação e saúde, passando pela agricultura familiar. Entre as principais características do Fome Zero estava a coordenação das ações de governo por uma equipe multidisciplinar. A nossa grande inspiração foi a promessa feita pelo ex-presidente Lula ao tomar posse, de que toda cidadão brasileiro faria, pelo menos, três refeições ao dia. A lógica por trás do Fome Zero era a de que a pobreza e a fome só poderiam diminuir com a intervenção do Estado. Seguindo essa lógica, ao longo do tempo, o Fome Zero foi aperfeiçoado pelo governo federal tomando a forma dos demais programas e ações no combate à exclusão social. 

Quais são os critérios da FAO para um país ser incluído no  Mapa da Fome?

O Mapa da Fome é um indicativo da fragilidade da segurança alimentar dos países. Eu costumo esclarecer que não existe uma punição aplicada pela ONU aos países onde persiste a fome. Quando nos deparamos com casos de insegurança alimentar grave, e isso ocorre na maior parte das vezes nos países da África, nossa recomendação é de, paralelamente, aumentar a  disponibilidade de alimentos e assegurar acesso da população a esses alimentos.

O país corre o risco de voltar ao Mapa da Fome, do qual tinha sido excluído em 2014? 

É importante lembrar que o Mapa da Fome da FAO utiliza como fonte de dados as pesquisas conduzidas pelos governos nacionais, no caso brasileiro, o IBGE. Dados mais recentes do IBGE já estão sendo analisados pelas equipes da FAO e indicam, preliminarmente, que metade das famílias em situação de extrema pobreza está, hoje, mais sujeita à insegurança alimentar e nutricional. Os motivos são a recessão econômica, desde 2015, com desemprego crescente e o cortes nos gastos de governo com as políticas sociais. Se o Brasil não voltar a crescer de forma contínua para promover uma retomada no mercado de trabalho, e se não forem não apenas mantidos, mas claro, ampliados os programas sociais, em particular os de transferências de renda, como o Bolsa Família, compras da agricultura familiar para a merenda escolar e a aposentaria rural, corremos o sério risco de voltar ao Mapa da Fome. 



Tags: alimentação, entrevista, fome, jb, mapa, política

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