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'Le Point': Agricultura é "boia de salvação" temporária da economia do Brasil

A longo prazo, obstáculos relacionados a infraestrutura impedem dinamismo do setor

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O jornal francês Le Point publicou nesta quarta-feira (19) uma matéria onde analisa o cenário econômico do Brasil e a importância da agricultura para a saída do país da recessão.

O setor agrícola foi o grande responsável pelo aumento do PIB brasileiro no primeiro trimestre de 2017, o primeiro crescimento após oito trimestres de declínio, mas de acordo com o diário francês alguns analistas se perguntam se esse papel de liderança vai durar muito tempo e até mesmo se isso é desejável.

No primeiro trimestre, o PIB do Brasil cresceu 1% em relação ao anterior, graças a um crescimento de 13,4% da agricultura, somado a 1% do setor industrial e zero no setor de serviços, aponta o Le Point.

Este é o maior aumento registrado pelo setor agrícola em 20 anos, impulsionado por um "super safra" de grãos e oleaginosas, que está prevista para este ano para ser pelo menos 27% da safra anterior.

"A agricultura se tornou a base da economia brasileira após dois anos muito difíceis devido ao mau tempo", disse Sylvain Bellefontaine, economista do BNP Paribas. Mas "um trimestre não é uma tendência. É sim um excelente resultado."

Boom de exportação ...

No entanto, a agricultura é o maior item de exportação do Brasil, destaca o Point. Em 16 anos, de acordo com dados do Ministério da Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o país quadruplicou suas exportações de produtos agrícolas e alimentares, de 20 bilhões de dólares em 2000 para 85 bilhões em 2016. O país se tornou o primeiro exportador mundial de café, açúcar e aves e segundo exportador de soja.

A participação em exportações de commodities agrícolas, que foi de 22,8% em 2000, não cai abaixo de 40% desde 2009. Em 2016 esse valor era de 42,7%, segundo dados MDIC.

"O setor primário é de curto prazo fundamental para o país, uma vez que atrai as exportações, e num contexto internacional é altamente favorável para o Brasil, com um forte desempenho na Europa e nos Estados Unidos, uma recuperação nos emergentes e aceleração das previsões comerciais do país ", disse Sylvain Bellefontaine.

China, um grande consumidor de produtos agrícolas, se tornou o maior parceiro comercial do Brasil em 2009, pontua o vespertino.

"Em 2016, o Brasil exportou US $ 35,9 bilhões (de mercadorias) para a China, 44% desse total vem da soja", disse Heloisa Lee Burnquist, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea ) da Universidade de São Paulo.

A oleaginosa ocupa o primeiro lugar das mercadorias exportadas pelo país, o que representa 10,4% do total em 2016.

... mas a infra-estrutura é pobre

A longo prazo, os obstáculos relacionados com a infraestrutura impedem o dinamismo do setor. Neste país de dimensões continentais, as mercadorias são transportadas por estrada para portos em vias congestionadas ou em mau estado, o que aumenta os custos de produção, observa o Le Point.

"A indústria tem se desenvolvido principalmente sob o impulso da procura externa, o que favoreceu a expansão da monocultura intensiva em grande parte para exportação e, portanto, dependente da situação econômica nos nossos parceiros comerciais", adverte Mauro Rochlin, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.

"Para que a saída da crise seja eficaz, o Brasil precisa investir em sua indústria, cuja competitividade se deteriorou nos últimos anos, bem como em setores emergentes", concluiu.

> > Le Point