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Selo Discobertas lança caixa com CDs ao vivo de Nara Leão

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Com discos festejados no Brasil e no exterior, Nara Leão, que morreu aos 47 anos em 1989,  tem uma obra com uma característica peculiar: nunca lançou um álbum solo gravado ao vivo. A diretora editorial e cineasta Isabel Diegues, filha da cantora e do também cineasta Cacá Diegues, lembra da “relação muito delicada” da mãe com o palco. “Ela gostava de cantar e de gravar discos, e de fazer essa viagem nas escolhas de músicas a serem gravadas, descobrir compositores, mas tinha uma relação muito ambígua até com esse lugar do palco, de estar ali, de as pessoas demandarem, de pedirem canções especificamente”, conta Isabel. “Minha mãe sempre primou muito por um certo recolhimento, uma certa independência”.

A chegada, pouco a pouco, de registros inéditos de shows de Nara ao produtor Marcelo Fróes está prestes a mudar essa história. Amanhã, Fróes lança, pelo seu selo Discobertas, a caixa Nara Leão Ao Vivo - Anos 60/70/80, que reúne quatro CDs, cada um com um show registrado em momentos diferentes na carreira da cantora: o primeiro em 1965, em São Paulo; outro em 1972, no Rio; o terceiro em 1978, no Teatro Galeria, também no Rio; e o último em 1985, em Belo Horizonte. Fróes conta que esses materiais vieram de acervos pessoais de diferentes fontes. 

“Tenho muito contato com técnicos de som, com gente que tem gravações guardadas. O Marco Antonio Bompet, que foi namorado da Nara, tinha o registro do show de 85”, diz o produtor. A primeira gravação que chegou a ele foi do show de 1978. “Os registros foram chegando. As coisas não estavam organizadas ainda, mas senti que eu tinha uma história na mão e propus para a Isabel (Diegues). Ela curtiu, aí digitalizei, remasterizei, preparei para ela ouvir a coisa numa qualidade boa.”

O material é precioso. “Disco ao vivo de Nara Leão nunca existiu. Ela só fez discos de estúdio, existem gravações ao vivo dela em projetos coletivos”, afirma Fróes, que já havia se dedicado à obra de Nara em outro projeto. “Ela até fez um especial para a TV, que depois foi lançado em DVD, mas aí é uma outra coisa. Mas disco ao vivo não existe. É a primeira vez”, complementa Isabel. 

Lançados numa edição caprichada e com impressionante qualidade sonora, os discos trazem no encarte as letras de todas as músicas e textos assinados pelo jornalista Renato Vieira, contextualizando os shows na carreira de Nara. “São registros de diversas fases da carreira dela, até praticamente a fase final de meados dos anos 1980. O show de Belo Horizonte, para mim, é o mais emocionante de todos, porque nele Nara realmente canta todos os sucessos. Canta até ‘A banda’ no bis, que é uma música que raramente cantava”, diz o produtor. “Quando escutei, falei: ‘Nossa, isso está bom demais. Ela está com uma força muito boa, se comunicando muito bem com a plateia’”. 

No primeiro disco, o show de 1965 traz a Nara da “época da bossa nova, dos programas de TV, dos shows nos cinemas e teatros”, diz Fróes. “Chama atenção ‘Tiradentes’, canção do humorista Ary Toledo (com Francisco de Assis), que foi gravada por ele num compacto na época. Elis Regina chegou a cantar também num programa de TV, e de repente surge na versão da Nara. É uma canção política, que não está em nenhum disco dela”, diz ele. 

Na época do show de 1972, que está no segundo disco do projeto, Nara retomava a carreira no Brasil após morar um temporada em Paris e, no palco, testava o repertório de um disco prometido para 1973, destaca Vieira, em seu texto. “Mesmo distante dos novos compositores, estava atenta ao trabalho do iniciante Luiz Melodia, já gravado por Gal Costa e Maria Bethânia, que lhe deu ‘Onde o sol bate e se firma’”, completa o jornalista. Na apresentação de 1978, gravada no Teatro da Galeria, no Rio, a cantora está acompanhada de Os Carioquinhas, conjunto de chorinho que tinha entre seus integrantes nomes como Raphael Rabello, Maurício Carrilho e Paulinho do Bandolim. 

Mentora do espólio da mãe, Isabel Diegues se vê mais como uma facilitadora do que alguém que, de fato, gerencia um espólio. Daí surgirem projetos relacionados à sua mãe, como a caixa. “Sou superfacinha, eu cedo praticamente tudo, não me lembro de ocasiões de dizer ‘isso não, isso sim’, mas quero saber para onde isso vai”, afirma ela. Isabel conta que indica caminhos e pode participar dos projetos. Mas sem interferências. “Uma das coisas importantes é que os admiradores, os pesquisadores, os interessados no trabalho que minha mãe fez ao longo da vida lancem também seus olhares sobre isso”, acredita ela. “Para mim, o que interessa é que isso não seja tratado como um produto, mas, sim, como uma espécie de manutenção que é feita pelas outras pessoas. Esse lugar de mantenedora da obra e da memória não é muito o meu lugar, acho que esse é dos pesquisadores, dos interessados na música dela. E, no que puder ajudar, farei na medida do que eu sou capaz”.