Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Na véspera de completar 109 anos, Municipal apresenta novo maestro

Cláudio Cruz vai reger a ‘9ª Sinfonia’, de Beethoven

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

Uma reunião com quatro trombonistas ainda ocorre na sala do maestro quando o repórter entra para entrevistar Cláudio Cruz, novo regente da Orquestra do Theatro Municipal. “Falta uma tuba”, relata um dos músicos ante a pergunta sobre se eles se reuniam para tocar em conjunto. A falta de alguns instrumentos na formação fixa, parte das consequências da recessão econômica, também tem seu lugar nas atividades de Cruz, que estreia hoje à frente do corpo, abrindo a programação de aniversário de 109 anos do Municipal, com a 9ª Sinfonia, de Ludwig Van Beethoven (1770-1827).

Efetivado há quase dois meses, ele tem como parte das funções “trabalhar as programações da casa”, conforme as peças de que dispõe, mas encara a missão com otimismo, desde que substituiu Tobias Volkmann, a convite do presidente do Theatro Municipal, Fernando Bicudo. “Há uma determinação da direção de que este é um momento para economizar dinheiro”, admite Cruz, que já esteve à frente das orquestras sinfônicas do estado e da cidade de São Paulo, de Curitiba, de Campinas e da Bahia, além de internacionais, como as sinfônicas de Avignon (Inglaterra), Hiroshima (Japão) e a Svogtland Philharmonie (Alemanha), e também foi diretor musical da Orquestra de Câmara Villa-Lobos por uma década. Violinista, foi spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). 

Com passagens pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo(Osesp) e pelo exterior, Cláudio Cruz assumiu a regência da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal em maio

A contratação de integrantes permanentes para preencher as lacunas da orquestra, por enquanto, não é cogitada, mas músicos extras são chamados, de acordo com o repertório. “A determinação é por cautela e eu acho que está correto, mas as lacunas são poucas para uma orquestra com cerca de 70 músicos”, afirma o maestro.

“Além da tuba, tem um segundo fagote, um segundo trombone, alguns violoncelos e violas, que foram contratados como extras para a 9ª Sinfonia”, ressalta Cruz, que, por sua vez, determinou a peça mais célebre de Beethoven para estrear na casa. “A escolha foi minha, porque queria estrear no Municipal com uma peça grandiosa, ainda mais marcando o evento de aniversário”. Ele destaca a “Ode à Alegria”, que, pela primeira vez, inclui um coral em uma sinfonia, “uma poesia [de Friedrich Schiller] pela união de todos nós, como irmãos, cada um com a sua fé, sua concepção pessoal, mas conectados em respeito mútuo. Fala também do amor para uma pessoa e de como é bom você amar definitivamente uma pessoa”. 

Beethoven foi o primeiro compositor a incluir o coro em uma sinfonia, a 9ª, em 1824

Recém-chegada à casa, o regente garante que teve tempo suficiente para ensaiar com a orquestra antes da estreia, mas já quis colocar sua concepção na peça. “Geralmente, a orquestra ensaia cinco ou seis vezes. Estamos fazendo sete ensaios, porque tenho muita a dizer sobre a 9ª Sinfonia”, afirma. “Existe toda uma pesquisa feita a partir de 1950 sobre música antiga, sobretudo a que antecede o período romântico, essa música dos períodos barroco e clássico, que é o do Beethoven. Ela aborda a articulação, a dicção, de deixar paralelo o que a orquestra toca e o que o coro canta. Durante muito tempo, isso foi deixado um pouco de lado; o importante era o espetáculo, fazer uma orquestra enorme, com todo mundo tocando com intensidade. Muitas pessoas ainda tem essa ideia da 9ª… Eu sou daquelas que gosta como ela era tocada nas câmaras reais, na época do Beethoven eram pouquíssimos instrumentos”,  frisa o maestro que, no entanto, utilizará a orquestra completa do Municipal e  músicos extras. 

Em um ciclo que pode durar só até dezembro, o paulista Cláudio Cruz diz que não pensou duas vezes em vir dirigir a orquestra do Theatro Municipal, que é vinculado à Secretaria de Cultura do Estado e, portanto, ao governo estadual, que passará por uma sucessão para o próximo ano. “Me disseram que, em geral, os maestros sobrevivem à troca de governo. A nova direção vai dizer se tem interesse na continuidade, mas eu não tive dúvidas em aceitar o convite, pela grandiosidade e a importância do Municipal, além do alto nível dos três corpos estáveis [orquestra, coro e corpo de balé]. Estava esperando o convite de um grande teatro. Mesmo que eu fique só até dezembro, já valeu”. 

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Serviço 

THEATRO MUNICIPAL. Praça Floriano, s/nº, Cinelândia. Capacidade: 2.226 lugares. Tel.: 21332-9191. 9ª Sinfonia, de Beethoven Hoje, às 19h30. Coro e Orquestra Sinfônica do TMRJ. Regência: Cláudio Cruz. Solistas: Michele Menezes (soprano), Andressa Inácio (contralto), Ivan Jorgensen (tenor) e Anderson Barbosa (baixo). Ingressos: R$ 40 (plateia, balcão nobre, frisas e camarotes), R$ 20 (balcão superior) e R$ 10 (galeria). Duração: 80 minutos. Classificação: Livre.

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Público ganha presente de aniversário amanhã 

Mantendo a tradição, o Theatro Municipal oferece entrada franca na programação no dia em que comemora 109 anos de existência, amanhã, com cinco espetáculos, do início da tarde até a noite. A celebração começa às 14h com o “Divertissement de aniversário”, apresentado pela Escola de Dança Maria Olenewa do próprio teatro, exclusivamente para a data. 

Em seguida, o Coro do Municipal apresentará o espetáculo “Modinhas que não saem de moda”. Durante uma hora, aproximadamente, o Coro interpretará um repertório de diversos períodos da música, apresentado através de roteiro teatral, dinâmico e informativo. 

Último ato do balé  “Raymonda” fecha a programação de aniversário do Municipal, às 20h  de amanhã. Os espetáculos começam às 14h, com entrada franca

A terceira apresentação ficará por conta do Quarteto Atlas, formado por quatro dos principais músicos da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal. O grupo tocará um amplo repertório, que abrange composições de Heitor Villa-Lobos, Dmitri Shostakovich e Ricardo Cândido, em um concerto de uma hora. 

O programa de encerramento da noite põe em cena os três corpos artísticos do Theatro Municipal: Corpo de Baile, Coro e Orquestra. Na primeira parte, o Corpo de Baile reapresentará o último ato de “Raymonda”, aclamado no espetáculo “Joias do Ballet”, sob a regência de Jésus Figueiredo, maestro do Coro. Fecha as comemorações a “Ode à Alegria – 4º movimento”, da “9ª Sinfonia”, de Beethoven, com o coro e a orquestra, regidos pelo novo maestro titular, Cláudio Cruz.

À moda de Paris 

Uma das mais imponentes construções do Rio de Janeiro, o Theatro Municipal foi inaugurado em 1909 na gestão do prefeito Francisco Pereira Passos, como parte do conjunto arquitetônico das obras de reurbanização do Centro, que contou ainda com a abertura da Avenida Central (atual Rio Branco). Com uma obra iniciada em 1905, ele seguiu o projeto de Francisco de Oliveira Passos – filho do prefeito –, com colaboração do francês Albert Guilbert, em um desenho inspirado na Ópera de Paris. 

Palco foi inspirado na Ópera de Paris e pelo qual passaram ícones Maria Callas, Stravinsky e Villa-Lobos

O design acústico foi construído nos moldes para apresentações de óperas e orquestras sinfônicas. Pelo palco,  já passaram ícones como a soprano Maria Callas (1923-1977) e o maestro e pianista russo Igor Stravinsky (1882-1971), além de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), maior compositor e maestro erudito brasileiro.

A decoração ganhou obras de alguns dos mais importantes pintores da época, como Eliseu Visconti e Rodolfo Amoedo, e de escultores como Rodolfo Bernardelli. Artesãos europeus foram contratados para fazer vitrais e mosaicos. 

Uma reforma por ocasião de seu centenário foi concluída em 2010, já sob a gestão estadual, apesar do nome. O Municipal é também a única instituição brasileira do gênero a abrigar três corpos estáveis, de balé, coro e orquestra. 

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Serviço 

PROGRAMAÇÃO DE ANIVERSÁRIO Amanhã. 14h: ‘Divertissement de aniversário’, com a Escola de Dança Maria Olenewa, do TMRJ (35 minutos). 16h: ‘Modinhas que não saem de moda’, com integrantes do Coro do TMRJ (60 minutos). 18h: Quarteto Atlas, composto por integrantes da OSTM (60 minutos). 20h: Primeira parte com o último ato do balé “Raymonda”, com o Corpo de Baile e a Orquestra do TMRJ. Regente: Jésus Figueiredo (18 minutos). Segunda parte com “Ode à alegria” (“4º movimento da 9ª Sinfonia”, de Beethoven) com o Coro e a Orquestra do TMRJ. Regente: Cláudio Cruz. Mesmos solistas de hoje (25 minutos). Entrada franca. Classificação livre. www.theatromunicipal.rj.gov.br. 



Tags: agenda, apresentação, balé, clássica, música, palco

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