Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Literatura: Os livros e a noite

Jornal do Brasil CLAUDIA NINA

A ideia de que a vida é um labirinto, assim como os jardins e as bibliotecas, faz pensar que os bons encontros são tão raros quanto preciosos, especialmente quando a interseção das linhas do tempo ocorre no meio das artes. Algumas epifanias surgem a partir daí. Um destes encontros aconteceu em 1964, quando o escritor argentino Jorge Luis Borges, já cego, em uma tarde, voltando da Biblioteca Nacional, entrou em uma famosa livraria de Buenos Aires e conheceu o então jovem livreiro Alberto Manguel. Borges perguntou se estaria disposto a ler para ele à noite. A mãe, Dona Leonor, que frequentemente o fazia, tinha 90 anos e estava cansada. 

Começava naquele momento uma história que se desdobrou em muitas outras interseções. O rapaz se tornou ficcionista, ensaísta e, desde 2016, diretor da Biblioteca Nacional – a mesma onde trabalhou o escritor com o qual sua vida cruzou na juventude. As lembranças das noites de leitura estão no pequeno “Com Borges” (Editora Ayné), em que as curiosidades da vida e do trabalho do autor de “O Aleph” ganham o sabor do texto de Manguel (dele, a conferir também o belíssimo “A biblioteca à noite”, entre outros). São breves lampejos, memória sobre memória, que tornam ainda mais interessante a pessoa de um escritor que, por si mesmo, transformara-se em personagem de ficção, pois para ele vida real era de fato aquela que se vive entre (e dentro) dos livros.

Capa do livro

A cegueira de Borges teve um lastro familiar e foi aumentando a partir dos 30 anos até que se firmou depois dos 58. Era uma tremenda ironia do destino para um homem que imaginava o universo como uma biblioteca. Lamentava não poder enxergar mais a cor preta na névoa que encobria seus dias, mas se alegrava em pensar no amarelo – a única cor que lhe restou, a mesma dos tão amados tigres: “Que pena não ter nascido um tigre”, confessou a Manguel nos intervalos das leituras.

O tamanho da biblioteca de Borges podia decepcionar a quem esperava conhecer uma enormidade. Mas as estantes continham, como reforça Manguel, a essência da leitura e do mundo do autor, que amava as enciclopédias e os dicionários e jamais se sentiu obrigado a ler o que não gostava. “Sou um leitor de prazer: nunca permiti que meu senso de dever influenciasse algo tão pessoal quanto a compra de livros” disse.

Nas estantes, ninguém encontrava as obras do próprio Borges. O que é bastante conciliável com a famosa afirmação de que ele se orgulhava muito mais dos livros que havia lido do que dos que havia escrito.

Algumas lembranças da infância percorrem o texto de Manguel aqui e ali. Quando criança, Borges costumava acompanhar o pai até a Biblioteca Nacional e, tímido demais para pedir um livro, pegava um dos volumes da “Brittanica” nas prateleiras e lia qualquer artigo que abrisse ao acaso. Daí o gosto de sempre pelas enciclopédias. O primeiro livro do qual se lembrava de ter lido era uma tradução inglesa dos contos dos irmãos Grimm.

Manguel relembra seu encontro com a palavra de Borges antes de o autor cruzar-lhe o caminho. Nos anos 1960, o escritor argentino ainda não tinha adquirido fama universal, mas seus labirintos poéticos eram estudados escrupulosamente: “Estudar a escrita de Borges em detalhes gramaticais (recebíamos parágrafos de suas histórias para fazer análise sintática) era um exercício misteriosamente fascinante, e foi quando me achei mais perto de compreender parte de como a sua imaginação verbal funcionava”.

Depois, a convivência direta com o autor nas noites de leitura trouxe a proximidade com uma forma muito particular de humor e, claro, de trabalhar nas invariáveis do fantástico, até mesmo nas situações cotidianas da vida. Uma advertência ao sobrinho, que tinha seus cinco ou seis anos: “Se você se comportar, eu lhe dou a permissão para pensar num urso”.

As obsessões, paradoxos, pensamentos, as principais amizades literárias, como com Bioy Casares e Silvina Ocampo, enfim, preciosas “lembranças das lembranças” espalham-se pelas páginas deste livro tão mínimo quanto luminoso. As memórias de um autor sobre outro autor montam uma espécie de jardim do tempo, metafísico, tortuoso, cheio de zigue-zagues.

Escreve Manguel, quase ao fim do texto: “Há escritores que tentam colocar o mundo num livro. Há outros, mais raros, para quem o mundo é um livro, que eles tentam ler para si mesmos e para os outros. Borges era um desses escritores. Ele acreditava, contra todas as probabilidades, que nosso dever moral era ser feliz, e que a felicidade podia ser encontrada nos livros, apesar de não conseguir explicar a razão disso”.

Para quem quiser se aprofundar no tema “noite e livros”, ou seja, a leitura para cegos, fica a dica de um trabalho que obviamente faz alusão a Alberto Manguel e à escuridão compartilhada de Borges: “Ler e escrever no escuro: a literatura através da cegueira” (Paz e Terra), da jornalista Denise Schittine. Uma extensa bibliografia sobre o tema é recuperada nesta belíssima pesquisa.

Livros sobre livros sobre livros... O labirinto é infinito. Afinal, qualquer livro contém a promessa de todos os outros, eis um dos legados filosóficos do genial autor de “A biblioteca de Babel”.



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