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Cultura

Obituário: Morre, aos 85 anos, escritor americano Philip Roth

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O prolífico escritor Philip Roth, um dos ícones da literatura dos Estados Unidos na segunda metade do século XX, morreu aos 85 anos, na noite de terça-feira. O agente do escritor, Andrew Wylie, disse à imprensa que Roth - que havia se aposentado da literatura em 2012 - foi vítima de insuficiência cardíaca congestiva.

Roth, que nasceu em Nova Jersey e vivia entre o apartamento no Upper East Side de Nova York e uma casa em Connecticut, foi um virtuoso ensaísta e crítico, assim como agudo observador da sociedade americana. Tinha apenas 26 anos e era professor de Literatura Inglesa quando publicou sua primeira obra, em 1959, “Adeus, Columbus”. O livro de contos venceu o National Book Award um ano depois (prêmio que receberia novamente em 1995 por “O teatro de Sabbath”).

Conhecido por revisar a experiência judaico-americana em mais de 30 livros, o escritor foi uma importante referência da literatura após a Segunda Guerra Mundial, devido à universalidade de sua mensagem. “I don’t write Jewish, I write American” (“Eu não escrevo judeu, eu escrevo americano”), disse uma vez.

O autor, na Casa Branca em 2011, recebeu os mais importantes prêmios de literatura, menos o Nobel

Roth considerou que chegou a um ponto de inflexão quando percebeu que poderia usar o próprio mundo como matéria-prima literária, fosse a sua infância ou o cenário de sua cidade natal, Nova Jersey. “Não se pode inventar do nada, ou definitivamente eu não posso. Preciso de algo real, unir dois fragmentos da realidade para obter o fogo da realidade”, afirmou em documentário de 2011. 

Ele se tornou um autor conhecido por todos em 1969, com “O Complexo de Portnoy”, que gerou grande polêmica. No livro, o jovem protagonista aborda, sem qualquer reserva com seu psicanalista, a sua obsessão pela masturbação e o relacionamento com a mãe possessiva, os Estados Unidos e o judaísmo.

A obra rendeu fama mundial ao escritor, mas representantes da comunidade judaica consideraram que o romance estava impregnado de antissemitismo. Outros enxergaram pura e simplesmente pornografia. “Fico feliz de escrever sobre sexo. Um tema extenso! Mas a maioria das coisas que conto em meus livros nunca aconteceram. No entanto, são necessários alguns elementos da realidade para começar a inventar”, disse alguns anos depois.

No ?m dos anos 1970, influenciado entre outros pelo autor americano Saul Bellow, iniciou uma série de nove livros, nos quais o protagonista era um jovem romancista judeu, Nathan Zuckerman, geralmente considerado seu alter ego. Entre os livros da série, estão três de seus maiores sucessos: “Pastoral americana” (1997), sobre os estragos da Guerra do Vietnã na consciência nacional; “Casei com um comunista”(1998), sobre o Macartismo; e “A marca humana” (2000), que denuncia um país puritano e voltado para sim mesmo.

Contemporâneo de Don DeLillo, Saul Bellow e Norman Mailer, Roth conquistou as maiores premiações da literatura nos Estados Unidos, foi um eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, que jamais venceu. Conquistou em 1998 o prêmio Pulitzer por seu aclamado romance “Pastoral americana”. Também recebeu o prêmio Man Booker International pelo conjunto de sua obra em 2011. Um ano depois, recebeu o prêmio Príncipe das Astúrias e, em 2015, a França concedeu o título de Comandante da Legião de Honra, um reconhecimento que o escritor recebeu como “uma surpresa maravilhosa”.

Seu último romance ,“Nêmesis”, sobre a epidemia de pólio em 1944, foi publicado em 2010, dois anos antes do anúncio de Roth de que deixaria de escrever, o que deixou o mundo da literatura atônito. “Não tenho mais energia suficiente para suportar a frustração. A escrita é frustração, uma frustração cotidiana, para não dizer humilhação. Não posso mais enfrentar os dias em que escrevo cinco páginas e jogo fora”, justificou ao “New York Times”. 

No documentário “Encontro com Philip Roth: Biografia de uma obra”, do diretor François Busnel, Roth disse que não havia sobrado mais nada dentro da sua “cesta de imaginação”: “Eu olhava para ela, e ela estava vazia. Eu tinha a impressão de que não faria nada melhor do que já havia feito. Na verdade, eu corria o risco de fazer coisa pior. E por que fazer pior? Não sei sobre a minha carreira, mas a minha aposentadoria está sendo um sucesso”. O documentário francês de 2014, será exibido hoje, às 21h, no canal Curta!, onde, além da aposentadoria, o escritor também fala sobre sua obra literária, judaísmo e antissemitismo. 

Palavras para Trump

Seu livro “Complô contra a América” (2004) se tornou uma referência após a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O romance estabelece uma história alternativa do país, na qual imagina que Franklin D. Roosevelt foi derrotado na eleição de 1940 por Charles Lindbergh, um aviador com inclinações pró-nazismo.

Alguns críticos de esquerda estabeleceram uma comparação com a vitória de Trump, que Roth chegou a descrever como “ignorante de governo, da história, da ciência, da filosofia, da arte, incapaz de expressar ou reconhecer sutilezas ou nuances... de administar um vocabulário de 77 palavras”.

A velhice e a morte marcaram suas obras mais recentes, como “Fantasma sai de cena” (2007) e “A humilhação” (2009). “Escrevo ficção e me dizem que é autobiografia. Escrevo autobiografia e me dizem que é ficção. Então, como sou tão bobo e eles, tão espertos, deixem que eles decidam o que é e o que não é”, declarou, com ironia.



Tags: americano, autor, morte, obituário, roht

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