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Passaporte para a inclusão 

Mahamat-Saleh Haroun fala de amor e pertencimento sob a ótica de um refugiado

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Peras madurinhas, daquelas que o feirante apelida de “favo de mel”, servem de mimo (e de consolação) aos filhos do professor Abbas Mahadjir em “Uma temporada na França” (“Une Saison em France”), drama romântico que entra em circuito no Brasil na próxima quinta-feira. O filme revela uma fase mais madura – na forma e na reflexão moral – do diretor Mahamat-Salleh Haroun, do Chade. Educador nas salas de aula de Bangui, na República Centro-Africana, transformado em empregado de um entreposto atacadista tipo Ceasa ao chegar na Europa, não há nada mais importante para Abbas do que a pequena Asma e o resmungão Yacine. Os dois amam frutas, pois foram ensinados pela (finada) mãe a valorizar uma refeição nutritiva, sobretudo aquelas que preservam o cheiro da terra de onde vieram, à força, fugidos de uma guerra que lhes ceifou muito.

A baixa maior foi a esperança, cujo ferimento fatal no coração dessas crianças Abbas (interpretado de modo tocante por Eriq Ebouaney) tenta curar com carinho e boa comida, a fim de consolar uma dor indelével. Tão indelével que serve de fantasma no romance que ele ensaia viver com a florista Carole, vivida pela atriz e diretora Sandrine Bonnaire. Ela é a vitamina de que o organismo afetivo de Abbas precisa para funcionar bem de novo e aguentar o rosário de negativas em sua busca por um visto de permanência em solo francês. Ou seja, a busca por um novo lar. 

Nas folgas do trabalho com verduras e caixotes de mamão, Abbas lê muito: dava aula de Francês em Bangui e encontra entre Proust e Rimbaud um analgésico natural capaz de diluir sua angústia. Já seu amigo filósofo, Etienne (Bibi Tanga) - tio de Asma e Yacine, a quem mima com pizza e refrigerante - prefere ler Kant e cia., atrás do imperativo categórico do ódio geopolítico. Ele sabe o quão difícil será para Abbas conseguir um carimbo de asilo político em seu passaporte. E fará o possível para fazer o governo perceber o quanto os africanos expatriados sofrem após a diáspora. O sofrimento será tema do debate que a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) abre nesta segunda, às 20h50, no Reserva Cultural, com a jornalista Ana Rodrigues conversando sobre estética e geografia com Rachel Aguiar,  professora de Educação e Saúde da Universidade Federal Fluminense (UFF). 

Na tela, o gesto de combate de Etienne será brusco. Mas Haroun vai registrá-lo sem sensacionalismo. Nada em “Uma temporada na França” tem hipérboles descabeladas: o calvário dos refugiados não necessita de um colorido a mais. As cores da exclusão falam por si, na lógica lúcida – porém nada lúdica – do diretor de “Um homem que grita” (Prêmio do Júri em Cannes, em 2010) e “Grigris” (2013). Pilar audiovisual chadiano, onde é o único cineasta de visibilidade internacional, o diretor de 57 anos vem, desde “Darrat” (2006), secando sua narrativa, deletando música e esmaecendo a cor de sua fotografia. Aqui, a imagem beira o documental, usando o mínimo de luz. A luz mais forte é o sorriso companheiro de Carole, vitaminado pela atuação reflexiva de Sandrine. Mesmo este é raro, o amor deles é quase clandestino, dado o casamento indissolúvel de Abbas com seus mortos. Mas, vez por outra, a risada dela chega como um afago nele e em nossa percepção de uma geopolítica de repúdio aos estrangeiros.

 Falta um pouquinho de tônus ao filme para chegar onde Haroun queria: a indignação. Ele ralentou demais a edição e sua verve piqueteira de protesto. Mas o trabalho corporal de Eriq Ebouaney (ator francês cujos pais são de Camarões), num gestual de inquietação improvisado, dá potência à cada cena e inflama discussões.   

“A tragédia pode ser silenciosa” 

Na multiplicidade de realizadores africanos, o chadiano Mahamat-Saleh Haroun é um criador de heróis a serem imolados. Ativos ou passivos em sua jornada na aventura cotidiana da busca pela dignidade, seus protagonistas têm virtudes físicas, intelectuais ou morais que se destacam na multidão, mas elas não impedem o sacrifício que está no destino deles. “Uma temporada na França” aborda a imolação sob o viés do amor, como uma história a dois. Mas sua “love story” é carregada de elementos políticos, que ele explica a seguir, nesta entrev ista dada em solo francês na estreia de seu longa-metragem.

JORNAL DO BRASIL: O que a figura de Abbas, professor que busca refúgio na França, representa acerca da diáspora africana?

 MAHAMAT-SALEH HAROUN: Ele é um espelho ficcional de uma história que conheci no tempo em que deixei o Chade, fugindo de conflitos armados: um conterrâneo meu, que queria asilo político na Europa, tentou suicídio para chamar a atenção da mídia. Não morreu, mas ficou muito ferido. Foi uma autoimolação em praça pública. Não tive mais notícia dele, porém seu gesto não saiu de mim. Sei o que ele sentiu, pois também tive que deixar minha pátria para trás.   

JB: O senhor evita música, dribla soluções melodramáticas mais óbvias e nunca aborda, de modo frontal, a guerra que tira Abbas de seu país. É uma estratégia louvável eticamente, mas é um caminho mais difícil para apresentar ao espectador a real brutalidade de certas regiões africanas. O que o senhor mais ganhou narrativamente com a opção que fez?  

MSH: Ganhei a oportunidade rara de falar da vida íntima dos refugiados africanos, sem explicitar graficamente a violência armada, porém retratando de maneira crua uma outra forma de brutalidade: a burocracia. Saí de um documentário, o filme “Hissein Habré, une tragédie tchadienne”, diretamente para esta ficção, que me deu a chance de ter um elenco majoritariamente profissional, diferente de minhas experiências narrativas anteriores, em que sempre trazia não-atores. Foi um desafio e um aprendizado. O mais desafiador foi poder usar o conhecimento técnico de cada um deles em prol de uma história sobre os efeitos devastadores da falta de lar... mas de um lar político... para um pai viúvo com filhos, em um continente que não é o seu. A tragédia pode ser silenciosa.    

JB: Quais são as sequelas políticas da burocracia sobre a vida de um refugiado? 

MSH: A desestabilização. À espera de um papel que institucionaliza sua permanência numa terra estrangeira, um sujeito pode ser quebrado ao meio, esvaziado de sua esperança. Quis outro caminho para Abbas, pois dramaturgicamente esta é uma história de amor, como era o meu “Um homem que grita”, e histórias de amor necessitam de perseverança, pois elas falam sobre o gesto de resistir.

JB: O senhor foi o primeiro diretor de seu país a ter filmes em um festival como Cannes e, durante anos, foi o único realizador profissional em atividade no Chade. Qual é a maior responsabilidade nisso? 

MSH: Inspirar a juventude. Faço um cinema com atores negros, sejam profissionais ou não, que visita o real sob tintas poéticas de maior ou menor esperança. Mas eu o faço para provar aos africanos da minha pátria que podemos fazer cinema. Tem muita história no Chade a ser contada. Eu sei de algumas. Invento outras. Mas preciso de mais gente para fazer isso comigo. (R.F.)

* Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)