Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Cultura

Atitude do Santander de cancelar mostra 'se traduz como autoritária', diz curador

Petição online colhe assinaturas pela reabertura da exposição

Jornal do Brasil

Gaudêncio Fidélis, curador da mostra cancelada pelo Santander Cultural em Porto Alegre após de pressão de movimentos como o MBL, classificou a iniciativa da instituição como "uma atitude absolutamente intempestiva", que "se traduz como autoritária". 

A exposição "Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira" estava em cartaz desde 15 de agosto, e ficaria em cartaz até 8 de outubro, com 270 obras relacionadas a questões de gênero, de 85 artistas, como Adriana Varejão, Cândido Portinari e Ligia Clark.

"Acho que nós somos confrontados com uma questão dramática: como será o universo da produção artística e cultural do país quando um precedente destes se abre? Que tipo de incidentes similares nós vamos ter quando, tão rapidamente, um grupo de extrema direita e tão reacionário consegue fechar uma exposição desta grandiosidade?", questiona Gaudêncio Fidélis ao portal vereador David Miranda (Psol-RJ).

O curador, que tem mais de 50 exposições no currículo, já foi diretor do Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS) e curador-geral da décima edição da Bienal do Mercosul, destaca que a "Queer Museu" é "a maior exposição Queer e que aborda questões de gênero, de identidade de gênero, expressão de gênero, diferença e diversidade que o Brasil já teve". 

>> Santander cancela mostra de arte após pressão do MBL

"Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira" estava em cartaz desde 15 de agosto 
"Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira" estava em cartaz desde 15 de agosto 

"Mas não é só isso. Essa é a primeira exposição desta escala, neste assunto, na América Latina. Escrevi isso na argumentação do projeto, quando ele estava começando. É importante dizer que ela é uma das poucas do mundo", acrescentou. "Tivemos antes uma exposição em Washington, que foi uma exposição mais específica e histórica focada em retratos, mas tinha temática Queer muito importante. Antes disso, tivemos no Museu Internacional de Arte em Varsóvia, na Polônia, muito grande, muito importante, que percorreu desde a arte grega até a arte contemporânea. E agora, recentemente, paralela à nossa, nós tivemos uma exposição da Tate Modern, em Londres, uma exposição histórica da arte Queer, que cobre um período específico da arte britânica e, nesse sentido, tem a ver com o enquadramento da nossa. A exposição Queer Museu não é concentrada apenas num determinado período, mas concentrada em arte brasileira."

Questionado se teria pensado no "fantasma da perseguição conservadora dos grupos de direita no Brasil" durante a montagem da exposição, o curador respondeu: "Correndo o risco de parecer ingênuo, eu te confesso que, em nenhum momento… e olha que eu já fiz exposições que levantaram muito mais polêmica. Na Bienal do Mercosul (de 2015, do qual Gaudêncio foi curador-geral), houve um ataque à obra Tropicália, do Helio Oiticica. Mas foi um ataque de outra ordem, não era de teor moralista, como esse. Eu já organizei mais de 50 exposições, mas eu não imaginei e nem houve, no processo de gestação, organização e nos 26 dias que a exposição esteve aberta, não houve qualquer manifestação negativa em realização da exposição ou em relação a obras específicas."

Ele acrescenta que há uma controvérsia no discurso montado contra as obras da mostra. "Vamos falar bem concretamente: não há nada na exposição do que eles estão falando. Hoje um repórter me perguntou, numa rádio, o que eu poderia dizer sobre a obra de Cristo com um macaco, se seria um ataque à Igreja Católica. E eu respondi 'não há uma obra com um Cristo com um macaco' na exposição. Simplesmente não há!"

"Eles construíram uma narrativa oral e visual que não corresponde à exposição. Mas agora temos um agravante: nós não temos a exposição para provar o contrário. Ela foi fechada."

Um abaixo-assinado foi aberto na internet, para colher assinaturas pela reabertura da exposição Queermuseu. "O fechamento da exposição "Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira" em cartaz no Santander Cultural em função de protestos contra o seu conteúdo é um retrocesso e a atitude exatamente contrária que deve ter um centro cultural sobre os conteúdos artísticos que viabiliza à apreciação de toda uma sociedade", diz um trecho do documento. Às 12h15 desta terça-feira (12), o documento, a ser entregue ao Santander Cultural Porto Alegre, já contava com mais de 35.400 apoiadores.

O Santander anunciou em nota divulgada em rede social o cancelamento da mostra. "Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra."

Na sexta-feira (8), o Santander tinha publicado outra nota, esclarecendo sobre o caráter da mostra: "A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em cartaz no Santander Cultural até 8 de outubro, promove o questionamento entre a realidade das obras e o mundo atual. Algumas peças apresentadas na mostra revelam imagens que podem provocar um sentimento contrário daquilo que discutem. Porém, foram criadas justamente para nos fazer refletir sobre os desafios que devemos enfrentar em relação à questões de gênero, diversidade, violência entre outros."

Tags: arte, cultura, diferença, família, gênero, museu, queer, redes sociais

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