Três veteranos de estilos cinematográficos diferentes fizeram sua estreia nesta segunda-feira (21) na competição do 65º Festival de Cannes. A abertura da programação do dia coube ao mais experiente deles, o francês Alain Resnais que, às vésperas de completar 90 anos, no próximo dia 3 de junho, parece renovar energias – mesmo que usando velhas elementos de sua obra – em Vous n’avez encore rien vu (Você ainda não viu nada, em tradução livre).
Resnais reúne grandes atores do teatro e do cinema franceses, como Sabine Azéma e Michel Piccoli, para contar a história de um dramaturgo que, ao falecer, convoca todos os amigos que trabalharam com ele, ao longo dos anos, em sua versão para a peça Eurídice, de Jean Anouilh, para a leitura de seu video-testamento.
Nele, o falecido pede que os amigos assistam a um filme no qual jovens de uma companhia teatral atuam em uma versão de sua peça, e então autorizem ou não sua montagem. Inspirados pela performance na tela, eles passam gradualmente a interpretar Eurídice, mesmo que já não tendo a idade apropriada para os papéis.
Assim com os mais conhecidos filmes do diretor, como O ano passado em Marienbad (1961) e Hiroshima mon amour (1959), Vous n’avez encore rien vu trabalha com os temas do tempo e da memória. “Ao longo da última década, li várias entrevistas de atores e diretores dizendo que atuar em teatro é diferente de atuar em cinema, como se uma arte fosse superior à outra. Eu, ao contrário, vejo muitos paralelos entre os dois, e era isso que queria provar neste filme”, explicou Resnais.
Outro que dá nova forma a temas já anteriormente explorados é o iraniano Abbas Kiarostami, que exibiu Like someone in love. É o segundo longa-metragem do realizador ganhador da Palma de Ouro (por O gosto da cereja, em 1997) rodado fora de seu país natal – o primeiro, Cópia fiel (2010), filmado na Itália, deu à francesa Juliette Binoche o prêmio de melhor atriz em Cannes.
Like someone in love fala sobre uma jovem garota de programa que faz ponto em um bar da moda de Tóquio, obrigada por seu ‘agente’ a abandonar os planos de encontrar a avó para atender um cliente de última hora. Este é um velho e tranquilo professor, que busca apenas companhia. Na manhã seguinte, ele se oferece para levá-la à faculdade, onde vem a conhecer o noivo possessivo dela, que o toma pelo avô da jovem.
Como em seus filmes anteriores, Kiarostami brinca com questões sobre identidade e a percepção que temos um do outro. Perseguido em seu país, onde vários de seus filmes foram banidos dos cinemas locais, o diretor tem procurado inspiração (e financiamento) no exterior. “Por razões óbvias, nos últimos anos tenho trabalhado fora do Irã. Filmar uma história no Japão, com atores japoneses, provou o que eu já sabia, que compartilhamos das mesmas condições humanas”, analisou o diretor de 72 anos.
O programa foi encerrado com o bom-humor de Angel’s share, do britânico Ken Loach, sobre um rapaz de Glasgow que não consegue escapar de uma velha rixa entre famílias. Ele é constantemente assediado pelos valentões rivais, confrontos que acabam, inevitavelmente, aumentando sua ficha policial.
Quando tornasse pai, o sujeito promete abandonar a vida marginal e arranjar um emprego para sustentar a família. Mas, para isso, ele terá que executar um último golpe, com a ajuda de alguns amigos que fez em seu grupo de serviços comunitários.
“Ano passado, o número de desempregados entre os jovens na Grã-Bretanha ultrapassou 1 milhão, pela primeira vez na nossa história. Queríamos contar uma história sobre essa geração, que tem pela frente um vazio. Esses jovens têm certeza que não conseguirão um emprego permanente e seguro”, explicou Loach, autor de Ventos da liberdade (2006) e À procura de Eric (2009).