Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

O céu está em festa, com a alegria e a inteligência de Chico Anysio e Millôr

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Num espaço de menos de uma semana, a terra ficou mais pobre, e o céu, mais iluminado. Foram-se Chico Anysio e Millôr Fernandes, dois gênios das artes, das letras, do humor, do pensamento, da inteligência, da irreverência, do bom gosto.

Quando o Brasil ainda se recuperava, ou tentava se recuperar, da perda do pai de Painho, Azamuja, Alberto Roberto, Bozó e Salomé, entre tantos outros, vem a notícia de que Millôr Fernandes também partiu. Só nos resta imaginar como deve estar divertido lá em cima.

Autor de tiradas memoráveis, Millôr, assim como Chico, não se contentava com pouco: era desenhista, tradutor, jornalista, roteirista de cinema e dramaturgo. Enfim, um artista completo.

Chico Anysio e Millôr Fernandes durante encontro histórico em 2003

Em 1985, Millôr passou a ser dono de um espaço cativo na página 11 da editoria de Opinião do Jornal do Brasil. Suas frases e desenhos marcaram época, temperados com o habitual humor, sutil e enxuto. Sua participação no JB seguiu até 1992,  e enriqueceu ainda mais nosso acervo. Quando deixou o jornal, ele não disse que estava indo embora: comunicou aos leitores que sairia de férias para descansar um pouco.

No entanto, muito antes de se tornar colaborador do JB, Millôr já frequentava nossas páginas. Na verdade, nós é que o frequentávamos. Numa entrevista publicada em 21 de abril de 1957 no Suplemento dominical, o gênio, então com 33 anos de idade, já se manifestava. Veja como o próprio Millôr se definiu na época, a pedido da jornalista:

“Eu sou humorista contra vontade. Um teatrólogo, porque o Armando Couto me chateou tanto que escrevi uma peça. Vou fazer cinema porque no momento me considero um sujeito sem profissão. Em matéria de atividades, a de que mais gosto é ir à praia. Calço sapato 40, mas poderia calçar 42 do mesmo jeito – não me doeria mais nem menos. Nunca vi programa de televisão que prestasse. Sou, para mal ou para bem, um sujeito eclético. Gosto de todas as pessoas, de todas as coisas, de todos os esportes, gosto de ficar em casa, de conversar na rua, de ficar calado. Só não gosto mesmo de televisão, de rádio e de comer. Tenho 33 anos: na idade em que Cristo fez uma religião, eu só fiz o Pif-Paf. Acredito profundamente no corpo, mas sou um atleta frustrado. Como qualquer concretista, também leio cinco línguas ('como qualsiasi concretiste yo aussi read cinco languages'). Não sou católico, mas tenho minhas relações diretas com Deus. E... chega”.

Descanse em paz, professor. Muito obrigado, e divirta-se lá em cima.

Relembre desenhos e artigos escritos por Millôr no JB:

Veja a repercussão da morte de Millôr Fernandes:

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