Jornal do Brasil

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Cultura

Irmãos Paolo e Vittorio voltam aos festivais com 'Cesare deve morire'

Jornal do BrasilCarlos Helí de Almeida 

Nomes de ponta do cinema  autoral italiano, ganhadores de prêmios em diversas contendas estrangeiras, os irmãos Paolo e Vittorio voltam ao circuito de festivais internacionais com o curioso Cesare deve morire, exibido neste sábado (11) na competição do 62º Festival de Berlim. O filme mostra uma versão livre da peça Julio César, de William Shakespeare, encenada por detentos da prisão modelo de Ribibbia, para onde são enviados assassinos, traficantes de drogas e membros da Camorra, a máfia italiana.

Ganhadores da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1977, com Pai patrão,  sobre o filho de um rude pastor que consegue escapar do destino que lhe fora traçado pelo pai, aqui os veteranos realizadores se alinham à teoria de que a arte pode ser trasnformadora. “Desde que conheci a arte, esta cela tem me parecido uma verdadeira prisão”, afirma  um dos presos, ao ser escoltado de volta ao cárcere, depois de terminada a encenação da peça.

Os Taviani descobriram os atores-detentos e o programa ocupacional de Ribibbia por acaso. “Um amigo nos falou que tinha assistido a uma peça de teatro que o havia feito chorar, o que é incoumum nos dias de hoje. A montagem em questão era  uma adaptação de Inferno, a primeira parte de A divina comédia, de Danti Alighieri. Mas o que nos deixou realmente surpreso foi a revelação de que a peça era dirigida e intepretada  pelos próprios detentos”, lembrou Vittorio, de 82 anos, o mais velho da dupla.

Não muito tempo depois os Taviani conseguiram permissão para filmar uma peça dentro do presídio, com o elenco selecionado entre seus internos. O passo seguinte foi escolher um texto que, de certa forma, espelhasse a realidade dos presos. “Não demorou muito que o texto ideal seria Julio Cesar, de Shakespeare, porque fala de temas como assassinado, traição, luta de poder, desonestida e violência”, explicou Vittorio.

Escrita no século 16, a peça do dramaturgo e poeta britânico descreve a queda do imperador romano, responsável pela a expansão dos domínios de Roma, traído por um grupo de senadores e morto pelas mãos de um de seus amigos mais próximos, Marco Júnio Brutus, em 44 D.C.. Na peça dentro do filme, o assassino é interpretado por Salvatore Striano, que recebeu perdão de sua sentença depois de oito anos na prisão. “Shakespeare escreveu  Julio Cesar há mais de 500 anos, e que descreve fatos ocorridos há quase 2 mil anos, mas as mensagens que ela contém transcedem o tempo”, contou Striano, hoje trabalha como ator profissional em cinema e televisão.

Tags: camorra, circuito, itália, julio cesar, máfia, william shakespeare

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