Jornal do Brasil

Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Luiz Fernando Carvalho: 'Não corro atrás de elogios'

Jornal do Brasil

Carlos Helí de Almeida, JB Online

RIO - Diretor da minissérie Capitu,

Luiz Fernando Carvalho diz ao Jornal do Brasil que a pressão por audiência é normal e garante não sentir falta de se dedicar aos filmes:

- Não faço cinema a quilo

Nem o maior dos escritores brasileiros parece intimidar Luiz Fernando Carvalho, o mais ousado diretor da TV nacional. Capitu, minissérie que vai ao ar na Rede Globo a partir da próxima terça-feira, dia 9, é uma luxuosa adaptação de Dom Casmurro, o mais conhecido romance de Machado de Assis. Na imaginação do autor de A Pedra do Reino, a trágica história de amor de Bentinho e a mulher de olhos de ressaca , ganha roupagem barroca e ao mesmo tempo pop.

Machado não necessita de adaptações assassinas diz o diretor.

Abaixo, a íntegra da entrevista que o diretor concedeu ao JB:

Até que ponto a escolha do texto de Machado para 2008 pelo Projeto Quadrante é uma contribuição às homenagens ao centenário de morte do escritor?

Não fui guiado pela idéia das homenagens, Capitu é outra coisa. Uma aproximação enviesada, que se apropria do espírito da obra, e, de uma certa forma, nega-se a realizar uma mera reprodução dos costumes do século 19. Do meu ponto de vista, Capitu é uma afirmação modernista: a afirmação da força de uma linguagem, de um modo de literatura e também de um modo de olhar a vida, por que não? O que deveriam ser as folhas, os quintais e os olhos de ressaca frente às leis empoeiradas da elite branca do final do Segundo Reinado, senão vida? Afirmação da vida diante dos atavismos casmurros que nos cercam até hoje.

Trata-se de uma adaptação de Dom Casmurro, talvez o mais conhecido texto/protagonista de Machado. Mas a minissérie foi batizada de Capitu. A intenção é desviar o foco para a antagonista, a personagem feminina?

Talvez a minha intuição, falo assim porque foi de um estalo que de repente falei: Capitu! Foi de estalo, sem nenhum processo racional, que senti Capitu como um estopim, um elemento detonador de todos os processos do livro. Não digo com isso que Bentinho não seria Casmurro caso a vida não tivesse entrelaçado os dois, mas a natureza luminosa [transcendente até] de Capitu deve ser celebrada sem preconceitos ou julgamentos. De minha parte, esta mulher dionisíaca é uma força da natureza, com tudo que ela tem de provedora e de trágica, e não, ao contrário, uma fabricação da cultura da elite branca como é Bento Santiago.

Então a opção por esse título vem da tentativa de dialogar também com a personagem Capitu, que no próprio texto do Machado é tão misteriosa e enigmática. É um ensaio sobre a dúvida. Estou reafirmando a dúvida presente em Dom Casmurro como parte do processo cultural da modernidade, como processo dialético dos dias de hoje, e acredito que isso não é amoral ou imoral, isso não é um pecado.

Você optou por uma narrativa linear. Já andam dizendo que este é o seu trabalho mais palatável, digerível, ou mesmo popular, apesar dos diálogos do século 19 e as intervenções do narrador. Considera um elogio?

Não estou correndo atrás de elogios; por outro lado, ainda tenho as costas cheias de cicatrizes por ter feito A Pedra do Reino como fiz, e, sinceramente, buscava com o romance de Ariano Suassuna a mesma comunicação que busco agora com Machado de Assis. Não me guio pelo que é ou não palatável, me guio pela vida, com todos os riscos que isso possa ter. Às vezes o que produzimos reencontra a vida, outras nem tanto.

Euclides Marinho escreveu o primeiro tratamento de Capitu. Vem dele a contribuição para um texto menos descomplicado, fácil?

A contribuição do Euclydes foi sempre a de nos mantermos o mais próximos do livro possível. Ele produziu um enorme levantamento dos trechos mais importantes da narrativa e criou determinadas ligações que me guiaram até o final. Seu texto era como uma Bíblia. Até mesmo porque o texto de Machado é muito moderno e fluido, não necessita de adaptações assassinas.

Os romances de Machado oferecem verdadeiros passeios pelas ruas do Centro e do subúrbio do Rio da segunda metade do século 19. A maior parte da minissérie foi gravada no interior da sede do Automóvel Club do Rio. Foi uma opção econômica? Não considera o confinamento da história uma traição à faceta cronista do escritor?

Este romance em especial é um romance do mundo interno, das relações humanas. Não é um romance de rua, da cidade. Nesse sentido ele também é bastante shakespeareano, metade Romeu e Julieta, metade Othello, mas com um personagem hamletiano, que é o próprio Dom Casmurro. Mas voltemos, é verdade que inicialmente pensei em gravar a ação nas ruas. Quando percebi que o orçamento não possibilitaria gravar nos locais que eu havia pesquisado, o Automóvel Club esse velho palácio em ruínas no centro do Rio passou a representar um pouco da alma de Dom Casmurro, ou mesmo a própria visão machadiana, que mistura riso e melancolia com seu texto impregnado da idéia de que modernidade ou progresso já nascem em ruínas. O escritor construiu seu estilo a partir das ruínas de um tempo morto , dos resquícios arruinados de um mundo pré-moderno , como apontam seus especialistas. Além disso, Machado era um apaixonado por teatro, e tem duas reflexões que me orientaram bastante: a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada e a vida é uma ópera bufa com alguns entremeios de música séria . Portanto, me agarrei a essa idéia da ópera e das ruínas e fui.

Embora fiel ao texto original de Machado, a história de Bentinho e Capitu recebe interferências visuais e sonoras contemporâneas, como o trem da Central do Brasil, rock´n´roll na trilha sonora e aparelhos de MP3. Como essa combinação entre o antigo e o moderno é proveitosa para a minissérie?

Reconheço a dificuldade dos jovens na primeira leitura dos romances de Machado, que, em função da obrigatoriedade imposta pelo ensino básico, pouco entram no texto do escritor, tachando-o muitas vezes de sisudo. De algum modo, levei isso em conta quando estava elaborando as cenas. Pensei na abrangência do veículo e na necessidade de se desfazer esse tal preconceito que percebi entre os adolescentes que, cada vez mais, estão plugados ao mundo todo, às várias manifestações artísticas, em várias línguas, via internet. O que eu estou tentando fazer é reafirmar Machado de Assis em termos de conteúdo e linguagem. Em Dom Casmurro, no final do século XIX, Machado já propunha essa interatividade com os leitores. Então, a síntese de Capitu é do Machado. Agora, é claro que eu espelhei aquelas situações e as lancei para outras relações de imagens e sons, procurando um diálogo com as possibilidades de encenação da modernidade, abrindo o texto a outras visibilidades, como é o caso da cena do baile, onde os atores estão ouvindo a música em aparelhos de MP3 distribuídos à entrada do baile. Em outras palavras, sua escrita é moderna! Machado está vivo!

A escolha de Letícia Persiles, da banda Manacá, para viver Capitu jovem está relacionada a essa opção por um banho pop no texto de Machado?

O que mais me chamou a atenção na Letícia foi a força de seus olhos. Precisava de uma atriz com uma percepção lúdica do mundo. Capitu, tão repleta de mistérios e enigmas, soava-me desde sempre como uma anunciação, e foi com uma imensa surpresa e alegria para os meus sentidos que ela se revelou sobre um palco em um pequeno show de rock. Era uma atriz, era Letícia, mas era também Capitu, que vinha vindo. Fiquei alerta: de súbito ela se tornou visível com seus olhos eclipsados entre o Fogo e o Mar. Era Ela.

O mesmo pode se dizer da escolha de Michel Melamed, que vem do teatro, para o papel de Bentinho?

Há algum tempo acompanhava o Michel de longe. O trabalho dele é um conjunto de felicidades, e por isso muitas coisas luminosas partilhamos juntos, mas, essencialmente, trata-se de um artista puro. Não ligo se fica fora de moda essa tentativa de definir meu encontro com ele, mas ao conjunto enorme, dentre outras coisinhas, somam-se: dignidade humana e artística, sensibilidade, inteligência e uma generosidade com tudo e com todos. Esse é o meu querido Dom Casmurro. Não há outro igual na face da terra.

O Projeto Quadrante foi criado com o objetivo de transpor para a televisão obras literárias que possibilitem uma reflexão sobre a cultura brasileira independentemente do retorno em termos de audiência. Qual o próximo projeto do programa?

Primeiro, permita-me esclarecer uma coisinha: eu recebo a mesma pressão por audiência que qualquer diretor, certo? Não sou daqueles que fazem fita, a coisa pesa e muito para o meu lado. E não poderia ser de outro jeito, minha busca é conciliar qualidade, a responsabilidade cultural que acredito que a televisão ainda precisa abraçar mais e melhor, e a comunicação de que falo sempre. O resto é balela. Quanto ao Quadrante, seguiremos com Dançar Tango em Porto Alegre, do Sérgio Faraco, este o Quadrante do Rio Grande do Sul, e depois Dois Irmãos, do Hatoum.

Lavoura arcaica continua solitário em seu currículo como diretor de longas-metragens. Há planos para um retorno ao cinema?

Não faço cinema à quilo. Estou ligado ao ciclo do Quadrante, que me absorve tremendamente, é isso. Mas não estou desligado, sinto muito bem o que minha alma pede.



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