Jornal do Brasil

Cultura

Na base do miudinho

Musical conta a trajetória de Dona Ivone Lara

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

Dona Ivone Lara, a grande dama do samba, que morreu em 16 de abril, aos 96 anos, será homenageada no musical “Dona Ivone Lara - Um sorriso negro”, que estreia hoje no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. “Ela era firme, batalhadora, mas foi no miudinho que conseguiu assumir seu lado compositora”, diz Fernanda Jacob, que interpreta a compositora adulta. “Nos dias de hoje, em que não podemos mais aceitar situações de preconceito contra as mulheres, é difícil interpretar essa fase que ela tinha de dar, por exemplo, suas composições para o tio Dionísio apresentar na Serrinha como se fossem dele. Foi no miudinho que ela ganhou espaço para mostrar a sua música”, diz Heloisa Jorge, que vive Ivone jovem, usando o mesmo termo da colega de cena para falar de sua personagem. Dandara Mariana, que faz a sambista menina que ganha o passarinho Tiê e o cavaquinho do tio, a conheceu pessoalmente. “Eu a encontrei numa das feijoadas que Marquinhos de Oswaldo Cruz fazia no Dia de São Jorge. Fiquei muito emocionada”, lembra a atriz.

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Fernanda Jacob faz Dona Ivone já reconhecida como a grande Dama do Samba (Foto: José Peres)

O ator e produtor Jô Santana é o idealizador do musical que marca a segunda parte de uma trilogia que começou com “Cartola - O mundo é um moinho” e fecha com “Alcione – Eu sou a Marrom”: “Sou mangueirense desde criança e decidi que queria contar a história de meu povo negro, que tem tantos ícones, a começar por Cartola. Foram seis meses esperando uma reunião com a Nilcemar Nogueira, sua neta. Quando nos encontramos, eu disse: ‘Quero fazer um musical sobre Cartola, mas não tenho um Real’. Sei que começamos a chorar e que saí de lá com uma parceira”, conta Jô. Quando o espetáculo estreou em São Paulo, ele já começava as pesquisas para Dona Ivone. “Eu a conhecia apenas como sambista e não tinha ideia de toda a sua rica história. Foi uma mulher à frente de seu tempo; trabalhava como assistente social, cuidava dos filhos e sustentava a casa. Vejo muito de minha mãe e tias em sua história”, compara ele, que fez questão de chamar um diretor negro para o projeto, Elísio Lopes Jr., que também assina a dramaturgia. Quando estava amadurecendo a ideia, Jô chamou Rildo Hora para fazer a direção musical. “Rildo é luxo, glória e riqueza!”, brinca.

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Cena do casamento de Dona Ivone (Foto: José Peres)

Para o elenco que se reveza em 65 personagens com 450 figurinos, Jô diz que foram 4 mil inscritos. “Daí, selecionamos 600, peneiramos e chegamos aos 24 aprovados nas audições, além de oito músicos”, enumera. Entre os representados em cena, estão Silas de Oliveira, Delcio Carvalho, Clementina de Jesus e Roberto Ribeiro. Zaíra de Oliveira e Maria de Lourdes da Silva são vividas pela atriz Isabel Fillardis. “Zaíra, mulher cultíssima e elegante, foi preterida de receber um importante prêmio por ser negra. Ela orientou Ivone musicalmente e como mulher. E a prima Maria de Lourdes foi a sua grande inspiração, pois foi a primeira mulher da família a se formar”, conta Isabel, que participou do álbum comemorativo de 50 anos de Dona Ivone cantando “Sorriso lindo”.

O produtor Jô Santana só não fala muito sobre a polêmica que envolveu a cantora Fabiana Cozza - indicada pela própria família de Dona Ivone a participar do musical, mas que foi alvo de pesadas críticas nas redes sociais. Ela não foi considerada negra o suficiente para interpretá-la e decidiu não participar do espetáculo. “Sou fã dela e, quando liguei para convidá-la, topou na hora. Acho pertinente que ela tenha se posicionado daquela forma. Mas cada obra tem seu caminho e, então, decidi dar voz a quem ainda não tinha”, referindo-se à escolha de Fernanda Jacob. “O Elísio recebeu uma foto de um projeto que faço em Brasília chamado ‘Samba na rua’ e disse que sentiu algo. Fui chamada para as audições, cantei ‘Tendências’ e fui aprovada”, conta Fernanda que, então, começou a pesquisar os movimentos e a fala da personagem. “Eu sou pesada, ela era leve e doce; estou trabalhando a minha voz, que é bem mais grave que a dela. Quando me vejo muito Fernanda no palco, paro e começo de novo”, brinca, dizendo que se inspirou nas mulheres negras de sua vida para não fazer algo caricato. “Dou muita atenção também para os contracantos, porque o André Lara me disse que ela cantarolava o dia inteiro”, diz, referindo-se ao neto de Dona Ivone, que também integra o elenco.

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Fernanda, Heloisa e Dandara interpretam a sambista em três diferentes fases da vida (Foto: José Peres)

“No ano passado, o Jô mostrou o projeto e nós adoramos. Minha avó ficou muito feliz com o reconhecimento. Depois, ele me chamou para participar e estou adorando, porque me ajuda a me soltar mais como músico”, diz ele, que interpreta Mauro Diniz, Rildo Hora e ele mesmo no palco. “Quando cheguei na casa da Dona Ivone e vi aquela entidade, fiquei dois dias sem dormir me questionando se estaria à altura de fazer algo sobre ela”, lembra Jô sobre o primeiro encontro com a artista e sua família.

No espetáculo de duas horas e meia de espetáculo, a história de Dona Ivone Lara é contada em dois atos, que misturam tempos diferentes sem cronologia. Dandara vive a época do Colégio Orsina da Fonseca, e também Gal Costa e Emerentina; Heloisa, a sua fase jovem, quando conhece o marido Oscar Costa, na Serrinha, além de Elizeth Cardoso e Maria Bethânia; e Fernanda, já madura e consagrada no meio musical.

Uma das cenas do primeiro ato é a do casamento “celebrado” por Tia Teresa, que evoca Xangô, Ogum, Oxum e outros orixás para abençoar o casal. Um detalhe é que todos cantam “Força da imaginação”, menos a personagem principal - a artista demorou a abraçar a carreira. “As duas primeiras intérpretes não cantam por respeito ao silenciamento da própria Dona Ivone, que só começou a cantar tarde, lançando o primeiro disco somente aos 56 anos”, explica o diretor Elísio.

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SERVIÇO

Dona Ivone Lara - Um sorriso negro - Teatro Carlos Gomes (Pça. Tiradentes, s/n - Centro; Tel.: 2215-0556). Sex. e sáb, às 19h. Dom., às 17h. R$ 40 e R$ 80.



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