Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Esportes - Copa do Mundo

Nem Copa do Mundo anima brasileiros

A uma semana da estreia da seleção na Rússia, brasileiros mostram inédito distanciamento do Mundial

Jornal do Brasil MAURICIO FONSECAmauricio.fonseca@jb.com.br e GUILHERME BIANCHINIguilherme.bianchini@jb.com.br

Parece ser uma unanimidade nacional. Ninguém jamais viu tamanho desinteresse por futebol no país às vésperas de uma Copa do Mundo. A uma semana da estreia no Brasil na Rússia, é raro encontrar uma rua pintada, bandeiras verde e amarela nas janelas, um torcedor entusiasmado com a proximidade de mais um Mundial. 

O bom desempenho da seleção dentro de campo e o carisma do técnico Tite seriam motivos suficientes para deixar o torcedor brasileiro otimista. Mas não é o que se vê Brasil a fora. Há várias teses para explicar este distanciamento. Desde o abalo na confiança por causa dos 7 a 1 de 2014 ao momento do país, que deixa qualquer um desanimado. “Tenho viajado muito pelo Brasil e observado realmente um distanciamento muito grande da população em relação à seleção. Esse desinteresse se deve a alguns fatores. Primeiro, todo mundo está muito aborrecido com o que tem acontecido no país. Corrupção deslavada, descaso absoluto das autoridades. A população está muito desconfiada e aí a seleção fica em segundo plano”, afirma o sociólogo Maurício Murad, coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol da Uerj. 

Este parece ser mesmo o sentimento das ruas. No Rio, o desânimo é geral. “Não há animo para fazer festa. Nas outras Copas nós pintávamos as ruas, colocávamos bandeiras nos carros. Mas esse ano não há clima para isso”, afirma o taxista Mailton Rossi.

Numa rara exceção de animação nas ruas do Rio, os moradores da Pereira Nunes, em Vila isabel, retocam as pinturas do asfalto se preparando para o início da Copa, quinta-feira

Pesquisa mostra desinteresse pelo futebol

O jornalista Paulo Vinícius Coelho tem uma visão mais otimista. Ele reconhece que a Copa ainda “não pegou” no Brasil, mas acredita que as coisas mudarão quando a bola rolar. 

“Me lembro que em 2014 também havia esta discussão. A menos de um mês da Copa não tinha nada nas ruas. Mas quando a bola rolou, a paixão explodiu. Tudo bem que aquela Copa era no Brasil, mas pode acontecer isso de novo se a seleção, que é boa, for ganhando os jogos”, afirma PVC, que já está em Moscou para cobrir a Copa. 

Mesmo na Rússia, segundo ele, não há euforia. “Aqui o futebol não é muito popular, mas tenho acompanhado o noticiário dos jornais europeus e nestes lugares também parece que não vai haver Mundial. Na quarta-feira, o Cristiano Ronaldo ia participar do último amistoso de Portugal antes da Copa e a manchete do jornal “A Bola” era sobre o Benfica. No francês “L’Equipe”, a mesma coisa. Quinta-feira a manchete era sobre rugby. E olha que a seleção francesa é uma das favoritas ao título na Rússia”, acrescenta PVC .

Professor especializado em futebol do Instituto de Geografia da Uerj, Gilmar Mascarenhas está em Berlim participando de um encontro da Associação Alemã de Estudos Latino-Americanos. Eles realizam encontros anuais e o tema deste ano é futebol. 

Gilmar ficou surpreso com o que encontrou na Alemanha, país que é o atual campeão mundial. Esperava encontrar alemães eufóricos com a proximidade do Mundial. “Aqui na Alemanha há um clima de desinteresse grande. Não se vê nada. Estive em Lima há duas semanas, e lá, por conta do país estar voltando à Copa depois de 36 anos, há uma certa motivação”. 

Colunista do Jornal do Brasil, Renato Maurício Prado, há mais de 40 anos acompanhando o dia a dia do esporte no Brasil e no mundo, não se lembra de tanto desinteresse às vésperas da Copa. Mas acrescenta que não está nem um pouco surpreso com o cenário. “A situação do país também ajuda neste distanciamento. O futebol acaba ficando em segundo plano. Sem falar que a CBF é um antro de corrupção. O que antes era uma desconfiança hoje é uma certeza. Isso gera uma certa má vontade com a seleção”, indica. 

A má vontade não parece ser apenas em relação à seleção. Abrange o futebol em geral. No início de maio, o Datafolha divulgou pesquisa mostrando o desinteresse do brasileiro pelo futebol. Segundo os dados, 41% dos entrevistados não têm qualquer interesse por futebol. Um crescimento de 10 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, de 2010. Entre os que afirmaram ter grande interesse pelo esporte nacional houve uma queda de seis pontos. Foi de 32% para 26%. Mas o que assusta mesmo é o desinteresse do brasileiro em relação à Copa do Mundo, que sempre foi uma paixão nacional. Na mesma pesquisa, 42% disseram não ter nenhum interesse no Mundial. Em 2009, um ano antes do Mundial da África do Sul, o percentual era de apenas 18%. 

“O mundo está muito rápido atualmente. As pessoas consomem o que aparece no dia a dia. O fato é que o futebol tem muita mais concorrência do que tinha antigamente”, lembra PVC. 

Maurício Murad corrobora a tese de PVC. Ele diz que no Brasil de hoje há tanta coisa acontecendo que o futebol se tornou apenas mais um assunto. 

“Não há espaço para a preocupação com a Copa do Mundo na agenda das pessoas. Mas se o Brasil jogar bem e conseguir bons resultados, isso pode mudar”. 

É o que acha o aposentado Nélio Goulart, de Vila Isabel. “Eu acredito que quando chegar na hora o povo vai se animar”. 

Renato não tem dúvidas disso. “Se a seleção começar a ganhar, o brasileiro esquece tudo. Brasileiro gosta mesmo é de levantar caneco”.



Tags: brasil, colunistas, copa do mundo, futebol, rússia, seleção

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