Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

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10ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa

Jornal do BrasilWalmyr Junior *

A intolerância religiosa continua fazendo vítimas no Brasil. Nos últimos anos a CCIR , em parceria com o CEAP , vem chamando a atenção da sociedade e das autoridades públicas para o perigo da construção de estado teocrático em um país constitucionalmente laico como o Brasil. A comissão, que reunir no seu cerne diversos adeptos religiosos, está em vias de preparação da 10ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, que deverá reunir mais de 30 mil pessoas.  O que faz da caminhada o maior evento inter-religioso do país, e quiçá do mundo, com objetivos límpidos em prol das pluralidades, humanidades e liberdade religiosa. Ao longo destes dez anos - A Caminhada em defesa da liberdade religiosa, vem construído e frutificando um forte processo de resistência cotidiana contra todas as formas de Intolerâncias, preconceitos, descriminação e racismo.

Neste ano 2017, a caminhada, que já conta com a participação de diversos grupos culturais, celebra a adesão de escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro, tais como Portela, Mangueira e União da Ilha, além da ilustre presença do compositor, escritor e musicistas Martinho da Vila, um dos maiores símbolos da literatura brasileira.

“Não temos dúvidas de que a 10ª Caminhada em defesa da Liberdade Religiosa, será um dos maiores símbolos de alteridade e a união dentro do nosso país. Mesmo diante de um cenário político e econômico pouco favorável, principalmente para os setores populares, a solidariedade e o reconhecimento de si e do outro dentro dos processos de violências por causa da escolha pessoal religiosa”, atesta Ivanir dos Santos.

Defensor árduo no combate de intolerância, o Babalawô lidera diversas ações em prol da Liberdade Religiosa. O objetivo é promover ações sociais contra todas as formas de violência, intolerâncias e racismos. Dentre os seus trabalhos de maiores ressonâncias estão o livro bilíngue - “Intolerância Religiosa no Brasil – Relatório e Balanço”, publicado pelo CEAP em parceria com a editora Kline,  pontuando os casos dos últimos 10 anos de intolerância religiosa no Brasil, o curso Multiplicadores no Combate à Intolerância Religiosa, curso de Pós-graduação em Estudos sobre Pluralidades e Intolerância Religiosa (aprovado por unanimidade pelo conselho acadêmico da Universidade Católica de Petrópolis), e a criação de grupos de Estudos Sobre Intolerância Religiosa.

Com a campanha: “Mais que tolerância, nós queremos respeito”, a caminhada contará com representantes do candomblé, umbanda, bases evangélicos, católicos, budistas, muçulmanos, judeus, wiccanos, harekrishnas, ciganos, mórmons, dentre outros

“Há muito venho fazendo uma sóbria e gradual leitura sobre o que acontece no Brasil envolvendo crimes de intolerância religiosa, onde cheguei a uma dura conclusão: nós povo de Santo, desunidos da forma que estamos, estamos sendo presa fácil para os estrategistas dessas facções neo-pentecostais. Sem nenhum escrúpulo, líderes de algumas igrejas estão utilizando pregações dentro dos presídios e também fora deles, a fim de construírem um "exército" com o fito de destruir-nos”, alega Dom Orani.

Todas as caminhadas ficaram conhecidas também pelos trabalhos voluntários. E esse ano, não será diferente. Simpatizantes e religiosos unidos pela garantia de um evento harmonioso, estruturado e seguro. Representantes religiosos de outras regiões também marcam presença, oriundos da Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e outros.

Como tudo começou - A Comissão de Combate a Intolerância Religiosa (CCIR), se formou em 2008, após traficantes de drogas, que se diziam evangélicos, da Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, expulsarem integrantes de matriz africana de suas casas. Os bandidos foram convertidos, a segmentos neo-petencostais dentro de presídios e, ao ganharem liberdade, proibiram o “Povo de Santo” de dar continuidade a seus encontros e assistências religiosas.

A CCIR, então, iniciou um protesto nas escadarias da Assembleia Legislativa com o intuito de chamar a atenção das autoridades públicas para os casos de cerceamentos das liberdades. Após o episódio a Comissão resolveu ir ás ruas, e assim nasceu a 1ª Caminhada, onde reuniu no mesmo ano cerca de 20 mil pessoas. No ano seguinte, em 2009, recebeu 80 mil pessoas. Em 2010, 120 mil pessoas protestaram contra os preconceitos ligados à fé. Já na 4º Caminhada, computou 180 mil pessoas, que aderiram a luta da CCIR. A 5ª Caminhada em defesa da liberdade religiosa, registrou em torno de 150 mil pessoas. Nos anos seguintes, nas 6ª, 7ª, 8ª e 9ª, somou em torno de 150 mil participantes.

A caminhada ser realizada no dia 17 de setembro, domingo, às 13h, na altura do Posto 6 na Orla de Copacabana. Convocamos todos os homens e mulheres de boa vontade para juntos, lutarmos contra o racismo religioso, manifestado em intolerância. 

*Walmyr Junior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atuou como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ

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