Jornal do Brasil

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Coisas da Política

A crise da cultura: precisamos fazer as tradições falarem de novo 

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum 

A crise financeira global ameaça diretamente as conquistas sociais, e, como a peste recorrente, quem pagará a conta serão os pobres e a classe média. Previsível que a sociedade reaja, porém, quando se tensiona o estado de direito com incêndios, saques e explosão de crimes. Precisamos analisar melhor o que está acontecendo no lugar de aceitar tudo tão passivos. Esta geração é testemunha de um rito de passagem. E estamos bem no meio. Deve nascer uma nova consciência sobre o que será a atividade política. O capital especulativo luta contra as forças de produção. A coisa pública vem se tornando coisa partidária. O voto se tornou a cédula mais cara já inventada. A impressão que se tem é que uma referência normativa interna foi deletada, justo a que autorregulamentava os parâmetros éticos.

Trago a opinião de um famoso advogado muito bem informado: “Os políticos precisam mesmo fazer ‘caixa’ para se defender dos inexoráveis processos que sofrerão quando deixarem seus postos. Hoje em dia todo mundo tem um dossiê contra alguém”. Então, é um problema generalizado: situação e oposição parecem pensar da mesma forma, pois um dia sabe que se revezarão nos cargos. Com isso, tudo parece lícito, e qualquer denúncia do “mal feito” pode ser sempre abortada ou desqualificada sob a acusação de demagogia dos inimigos. Mas o poder é corporativo e, salvo exceções, enriquece. Rapidamente. Ora, se é carreira com tantos dividendos, poder-se-ia regulamentá-la, mas, para isso, precisaríamos costurar novo contrato social. Esqueçam, eles não são só eles: todos somos cúmplices.

Um pragmatismo selvagem tomou conta das sociedades que identificam desenvolvimento econômico com bem- estar, acúmulo material com felicidade, e progresso/evolução com abandono das tradições. Vivemos o paradoxo de uma era com inimaginável disponibilização de informações num contexto de paupérrima reflexão. A palavra cultura, que tem origem etimológica no cultivo e envolve “a totalidade dos padrões de comportamento, artes, crenças e instituições”, foi reduzida a entretenimento e distração. Tudo deve ser rápido, com poucos caracteres. Os artigos, digestivos; as músicas, monofônicas; as imagens, instantâneas. É satisfação garantida, ou seus milhões de acessos de volta.

E ainda há essa praga chamada de “formadores de opinião”. Mas quem foi que disse que cabe aos intelectuais decretar se existe alma, se o conhecimento metafísico é obsoleto, ou aos cientistas militar em cruzadas a favor do racionalismo mecanicista?  

Pois há uma relação entre o lento apagamento das tradições e o desesperado rastreamento por algo que as substituam. Tradição como conjunto de saberes e práticas de cada comunidade.  Buscamos substitutos para a vida espiritual que vai se extraviando. O malogro é previsível, já que não existe consciência-estepe ou prótese que reponha a tradição de cada sujeito. Para os mais jovens, vai ficar cada vez mais duro. Diante dos valores revirados no lixo sobra pouco, e não é nada espantoso que estejamos mergulhados em futilidades, sob a pandemia de drogas ilícitas e maciça medicalização com substâncias congêneres.

O notável é ver a expansão da pobreza subjetiva, a que faz reduzir as expectativas espirituais. Na outra ponta, ocupando o imenso vazio, o proselitismo tosco com púlpitos eletrônicos e dízimos instantâneos. Não há mais como disfarçar a distorção generalizada dos valores transcendentes. Não me refiro exatamente à transcendência do tipo religioso, seja qual for o culto do cidadão.

É para ficar maluco mesmo.        

Pois essa miséria reafirma a primazia das coisas e da matéria sobre tudo e todos. Estrangula o horizonte que deveria nos alimentar. O fantasma é gigantesco, a armadura pesada, a ignorância persistente, e talvez não haja, sequer, cura. Mesmo assim, enquanto tivermos voz, podemos fazer com que as tradições falem de novo.

De preferência, o que nunca se ouviu antes.          

Tags: Coisas, coluna, paulo, poítica, rosenbaum

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