Jornal do Brasil

Segunda-feira, 16 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Produção artesanal e chance de melhorar sanidade bovina

Jornal do Brasil Evandro Guimarães

O governo sancionou lei para facilitar e tirar da informalidade a produção e venda de produtos artesanais. Tratemos só de queijos. Já é uma enorme realidade a produção e venda de queijos artesanais, os queijos “de fazenda“, “naturais“ ou “mineiros“ entre dezenas de denominações. São produtos na sua maior parte produzidos por famílias de pequenos ou médios produtores de leite que dão valor agregado a seu produto e sustento. É uma realidade cultural impossível de se reverter. Muitos são excepcionais. Dão emprego a centenas de milhares de pessoas, vendidos  no pequeno varejo, em restaurantes e botequins em muitos municípios ou pelo sistema porta a porta, por todo o interior. 

É uma prática tão enraizada que nem sei se a proposta de “formalização“ sancionada vai aumentar tanto o consumo. Virão regulamentações e, principalmente, virá em breve forte divulgação jornalística, lembrando a falta de segurança no consumo dos produtos artesanais com o “gancho“ de campanha contra o consumo do leite. Como há mesmo pessoas intolerantes ao consumo de lactose e da beta caseína A1A1 ou mesmo A1A2, estendeu-se esse fato a uma campanha mais abrangente ao consumo de lácteos. 

Um passo foi dado para atender demanda antiga do artesanato do queijo e breve teremos reações. Escrevo animado pelo lado da esperança de que produtores de leite possam estar mais estimulados pelo lado cívico, da auto regulação, quanto ao status sanitário do gado leiteiro. Temos de acordar para o fato de que só os produtores poderiam gerar, com iniciativa própria, maior  nível de qualidade e segurança quanto à matéria-prima leite. 

Os criadores de cada município poderiam ter um Conselho Municipal de Auto Regulação de Sanidade Bovina Básica, composto só por produtores. Definidas as medidas preventivas, curativas e de manejo por exemplo, após 6 meses de avaliação (pelo Conselho), os criadores que cumprissem o protocolo ganhariam um selo certificador. O nível municipal é importante pois o Conselho local publicaria no site o nome daqueles autorizados a utilizar o respectivo símbolo. 

A divulgação local é rápida e econômica. Os recursos necessários são poucos: pequeno escritório, cessão de algumas horas por mês de veterinários, internet, uma secretária com tempo parcial. As vantagens são muitas. Os produtores certificados poderiam  receber centavos a mais por kg vendido e teriam retorno garantido. Tudo gerido sem governo. A área já é muito regulada, mas sabemos que a melhor fiscalização se dá pela mobilização cívica e orgulho de quem está na liderança, dos bons exemplos do setor onde atua. 

Desenvolvemos esta proposta há algum tempo e esperamos lançar projeto piloto em Leopoldina (MG) em breve. Os modelos de estatutos, atribuições, proposta inicial de certificação, divulgação para apoio técnico da indústria veterinária, dos varejistas, dos laticínios etc serão fornecidos a quem queira repetir iniciativas em seus municípios. 

O panorama é de desesperança com o mundo político e isso gera desânimo muitas vezes exagerado com os agentes públicos. Mas, podemos fazer nossa parte, de produtores cidadãos, como nesse caso simples e de grande efeito multiplicador. Já imaginaram a auto regulação no uso de defensivos ou de preservação de grotas e nascentes? Produtores de leite vão dar um bom exemplo. Vamos todos pensar o Brasil lá na frente? 



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