Peguei outro dia, na estante, um livro com os principais discursos de San Tiago Dantas, homem que marcou minha geração na véspera do movimento militar de 1964. San Tiago falava com elegância, num português culto sem palavras rebarbativas. A lucidez de sua inteligência nos hipnotizava tanto ou mais do que Carlos Lacerda e Leonel Brizola, dois outros expoentes da oratória política da época. Porém, em outro diapasão. Lacerda e Brizola eram discípulos de Wagner. San Tiago era o Bach da ária da quarta corda.
Quero, hoje, propor ao leitor uma pausa nessas pautas que nos paralisam e nos afastam numa discórdia que beira o ódio, que afasta amigos e familiares e deixa, por onde se passa, um travo amargo em nossa antes tão fácil convivência. Muitos viramos animais que se saúdam com o ríctus da raiva e não com o sorriso da paz. Temos nossas razões. Temo apenas que nossas desilusões se enderecem ao circunstancial e deixem de lado o essencial.
Porque o essencial é que somos um país e temos que ser uma nação. O que nos divide, hoje, é a concepção sobre o tipo de nação que queremos deixar para nossos filhos e netos. Não há respostas imediatas, mas há algumas verdades que devemos reconhecer. Ouçam o que dizia San Tiago, em 1961, num discurso na Câmara dos Deputados: “Se quisermos salvar, no mundo de hoje, as instituições democráticas, em primeiro lugar devemos preservar a paz; mas, em segundo lugar, e de modo igualmente imperativo, o que devemos é obter, no plano internacional e no plano interno, a abolição, tão pronta quanto possível, das tremendas desigualdades econômicas que ainda se abatem sobre os povos. Salvar a democracia é eliminar as desigualdades”.
Antevejo a fácil objeção do leitor: San Tiago era um homem de esquerda. Pois é, digamos que fosse. Demos, então, um pulo no tempo e no espaço. Ouçamos o que nos diz um jovem candidato à presidência dos Estados Unidos da América, um afro-americano de nome Barack Hussein Obama II: “A experiência americana deu certo em larga medida porque nós conduzimos a mão invisível do mercado com um objetivo mais alto. O mercado livre nunca pretendeu ser uma liberalidade para que se aproprie o que se queira de qualquer forma que se possa. A essência de nosso sucesso econômico reside na verdade fundamental de que cada americano vive melhor quando todos os americanos vivem melhor. Mas nós deixamos que interesses especiais colocassem seus polegares no equilíbrio econômico. O resultado foi a criação de um mercado distorcido, onde bolhas aparecem em lugar de um desenvolvimento estável e sustentável; um mercado que favoreceu Wall Street em lugar da rua comum, mas que acabou prejudicando ambas”.
As mensagens de Obama e de San Tiago são idênticas, embora distantes por quase seis décadas. Democracia e desigualdade econômica não se misturam e, na realidade, provocam ressentimentos que hoje estão à vista de todos. Há um óbvio renascimento de movimentos xenófobos, anti-imigratórios, associado à crescente violência seja nos estádios, nos comícios, nas cortes de Justiça. Em menos de dois anos, a pobreza aumentou 35% na cidade de São Paulo. O desemprego se torna endêmico no país. As famílias se endividam, crianças deixam escolas. Apenas os bancos apresentam lucros consistentes e crescentes, em clara distonia com a situação econômica do país. Quando confrontados com essa realidade, como o JORNAL DO BRASIL está fazendo, tendem a exibir uma perigosa síndrome de Maria Antonieta, a indiferença diante do descalabro. A sociedade brasileira adoece. A classe política esfarelou-se.
A economia brasileira, que antes era criticada por seus voos de galinha, hoje está mais trôpega que peru bêbedo. Há algo de muito errado na globalização mundial e no neoliberalismo brasileiro. As eleições de outubro serão a oportunidade para mudar o rumo desta nau dos insensatos. Conseguiremos? Tudo dependerá de fazer as perguntas certas, exigir respostas satisfatórias e fazer da força de nosso voto uma alavanca para o consenso. Nossos filhos e netos nos olham. Não podemos deixar-lhes, como diria Machado, a herança de nossa miséria.
* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: [email protected])