As chuvas e o trânsito
Assisto desolado ao que ocorre na minha querida Minas Gerais, que já me honrou com o título de cidadão honorário de Belo Horizonte e com a Grande Medalha da Inconfidência. Ficou demonstrada a fragilidade das suas estradas, quanto a um acabamento seguro de contenção das encostas que as margeiam. Já não basta serem as recordistas em acidentes, fruto de sua maioria com duplo sentido de circulação e a não proibição de circulação de caminhões durante os fins de semana ou feriados prolongados. Concordo que tal acabamento é muito caro, mas precisa ser começado. Afinal, os transtornos e as perdas de vida não têm preço. É tarefa que o governo federal tem que ajudar, como ajuda na implantação do metrô. A preservação da vida humana é mais importante do que a mobilidade urbana. Em Minas está o maior patrimônio histórico do Brasil, do seu período colonial e da arte barroca, a par de seu magnífico povo.
Também é de se lamentarem os reflexos do que ocorreu em Minas, em termos de chuvas, que vieram atingir o nosso estado do Rio. A Região Serrana, de novo, devido à incompetência e até desonestidade de seus governantes, quase nada mudou em relação ao que aconteceu no ano anterior, por ocasião da temporada de chuvas fortes. A sua pobre população tem tido um comportamento heroico, em contraste com os que deveriam dela cuidar. Também aqui ficaram evidentes as deficiências quanto ao escoramento das encostas que margeiam as estradas que lhe dão acesso.
Se bem me recordo, a estrada que dá acesso a Teresópolis, oriunda do Rio, recebeu um tratamento de contenção de encostas, em seus pontos mais críticos e que tem funcionado. Exemplo a ser seguido foi o trabalho que realizou o meu colega de colégio Raimundo Paula Soares, secretário de Obras do governo Negrão de Lima, quando após as tragédias das fortes chuvas em 1966 e 67, escorou, de maneira impecável, todas as pedras que poderiam rolar dos morros da então Guanabara. Lembro-me, com emoção, de que no dia em que ele pôde liberar o tráfego no Corte do Cantagalo (Avenida Prefeito Henrique Dodsworth), por haver terminado o trabalho de escoramento que garantia a segurança daquela importante artéria, telefonou-me, num fim de tarde. Era para me comunicar que poderíamos liberar o tráfego naquela artéria e completou repetindo o cabeçalho de todos os trabalhos escritos por alunos do Colégio Marista: “Viva Jesus, Maria e José.”
Longe vão os tempos em que reinava este espírito, entre colegas de governo, quando a “estrela” do governador fez com que, por feliz coincidência, em funções que poderiam ser conflitantes, fossem elas exercidas por sete colegas do colégio. Eles aprenderam, graças à formação ministrada pelos zelosos irmãos maristas, a temer a Deus para não temerem os homens.
O que está ocorrendo no norte do Rio, em especial na importante cidade de Campos, é de estarrecer. O Rio Muriaé — que transbordou, rompendo e interrompendo a única barreira, que era a Rodovia BR 356, capaz de proteger a cidade de um grande alagamento — propiciou a tragédia. O que mais me impressionou foi uma declaração de um engenheiro, num jornal vespertino de TV, dizendo ser incompatível em engenharia fazer o leito de uma rodovia que funcione como um dique. Como ex-morador da Holanda estou estarrecido. Todas, ou quase todas, as rodovias secundárias daquele país exemplar têm os seus leitos sobre diques, especialmente construídos para garantir a circulação, no caso de invasão das águas do Mar do Norte. As suas bordas, que garantem a sua sustentação, têm o acabamento em pedra e concreto.
Mais coerente foi a declaração, também na TV, de um engenheiro do Dnit: “Esta estrada não foi construída para servir de dique”. Ou seja, poderia ser, se houvesse um mínimo de previsão. Cabe agora aproveitar os ensinamentos e dar meios, à competente engenharia brasileira, de realizar as obras capazes de evitar novas tragédias, que isolaram toda uma região habitada por gente humilde.
* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
