"Ainda não consegui entrar no quarto da minha filha", diz mãe de Realengo

Famílias contam como tem sido conviver com a tristeza uma semana após o massacre

Por Maria Luisa de Melo

Uma semana depois do assassinato de 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo (Zona Oeste do Rio), dezenas de familiares das vítimas das crianças contaram, durante a missa em memória das vítimas, como tem sido viver os dias depois da tragédia que se abateu sobre suas vidas.

Para a dona de casa Kátia Maria Silva Pinto, mãe de criação de Rafael, 14 anos, morto com um disparo na cabeça e outro no abdômem, a rotina ainda não pode ser retomada. "Tiraram um pedacinho de mim. Não consigo ficar de pé. O Rafael era o bem mais precioso que eu tinha", disse. "Acho que o tempo não vai apagar nada do que eu estou sentindo. Dói demais. Parece que não vai passar nunca", chora a mulher.

Mãe de Luiza, 14 anos, que sonhava em ser modelo, Adriana da Silveira, 40 anos,  conta que ainda não teve forças para entrar no quarto da filha. "Eu preciso esperar mais um pouco. Uma semana ainda não dá. Não consigo entrar nem no quarto da minha pequenininha. Ela tinha tantos sonhos, tantos planos, até que veio um tiro. Meu Deus! A gente não é nada nesse mundo".

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Já para a aposentada Nilza Chagas, 62 anos, avó da menina Karine Chagas de Oliveira, 14 anos, que cria a neta desde seus 4 anos de idade, o sentimento é outro. Segundo ela, o tempo vai apagar as marcas causadas pelo trauma do massacre.

"O meu coração está ficando mais calmo a cada dia", disse a dona de casa, entre uma e outra lágrima, depois de relembrar o dia em que enterrou a neta no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. "Parece que conforme o tempo passa a nossa paz vai aumentando. A saudade da minha Karine não passa, não vai passar nunca, mas meu peito está mais calmo".

Também se recuperando de enterrar uma filha ainda criança, o motorista Marco Antônio Souza, 48 anos, pai de Mariana Rocha de Souza, 14 anos, também observa que a tristeza está dando lugar apenas para a saudade.

"Da minha filha eu vou guardar apenas os momentos bons. Não quero lembrar dos ferimentos e do sofrimento que ela passsou. Só que quero sentir saudade, dispenso a tristeza", conta.

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