Gincana urbana
É muito triste o estado de pavor, fruto da insegurança em que vive a população da outrora Cidade Maravilhosa. Eu, que já tive orgulho de pertencer à Secretaria de Segurança, quando o Detran a ela pertencia, tinha inclusive a intenção de escrever algo a respeito da atual vergonhosa situação por que passam os nossos briosos policias. Felizmente, a semana que passou o deputado Marcelo Itagiba, policial federal, teve publicado aqui no JB um artigo de sua autoria, onde elegantemente se pronuncia como profissional e ex-secretário de Segurança sobre o problema atual, exonerando-me de comentar o assunto.
Assim sendo, vou hoje tratar de outra vergonha enfocada na grande mídia, que é o lamentável estado de nossas calçadas urbanas, fazendo-nos diariamente praticarmos uma verdadeira “gincana” por elas trafegando. São o paraíso dos ortopedistas, face aos inúmeros acidentes que provocam a sua intervenção. Eu mesmo já fui vítima, rachando o osso rádio do meu braço esquerdo, provocado por queda em calçada desnivelada. As mais deterioradas são as constituídas de pedras portuguesas, que deveriam ser decorativas e hoje são uma demonstração de desleixo e perigo. A sua origem foi ainda no tempo do Brasil Colônia, quando eram lastradas as caravelas que aqui abordavam, sem carga, para voltarem cheias com as riquezas da colônia tropical. Ainda podem ser vistas em calçadas do Rio antigo, como as do Beco dos Barbeiros e principalmente na Belém antiga. Posteriormente, divididas em pequenas pedras, tornaram-se lindo ornamento, formando desenhos como pioneiramente foram as famosas mundialmente calçadas da orla marítima de Copacabana. Eram caprichosamente construídas por profissionais, canteiros portugueses, e não formavam poças com a água da chuva porque tinham inclinação para escoa-las.
Com o tempo, esta prática foi se espalhando pelas demais ruas da cidade, já agora sem o capricho dos verdadeiros artistas portugueses, mas por operários comuns que as formavam sem nenhum cuidado de fazê-las comprimidas entre si, apenas enfiadas em areia, sem inclinação ou depressões, acumulando água da chuva e de fácil deterioração. Tornaram-se, com os seus desníveis provocados pela ação das raízes das árvores ali existentes, verdadeiros perigos ao tráfego de pedestres, principalmente os, como eu, mais idosos.
O estacionamento indevido de veículos, inclusive caminhões, sobre elas evidentemente é, talvez, o maior fator de deterioração das mesmas.
O interessante é que a conservação das calçadas é encargo, na sua maioria, dos residentes, no espaço que elas abrangem. Já houve tempo em que o Poder Municipal punia, com intimação e multa, os proprietários que não mantivessem as calçadas fronteiriças às suas residências ou estabelecimentos comerciais. Como diria a torcida do Corinthians: por que parou? Parou por quê?
Sinceramente não sei. Deixo aqui, em meu nome e de todos da minha geração ou próximas, um humilde apelo para que corrijam este mal, em boa hora lembrado pela grande mídia e, se me permitam, com o devido pedido de desculpas aos ortopedistas.
