Nós somos responsáveis pelos congestionamentos?
Recebi um email com a chamada: “Você vai gostar disto”, cujo título é o deste artigo. Curioso e, sem saber o que enfocava, ao abri-lo me deparei com uma análise do tempo de reação do motorista, muito bem explicado no “Traffic Engineering Hand Book, a “Bíblia do Trânsito”, que acarreta um retardamento de um deslocamento suave, de um sistema de coordenação semafórico, bem planejado. Como já ensinava Henry Barnes, legendário Diretor de Trânsito de Nova York por oito anos; “trânsito é o povo em movimento”, ou seja , são escravos , os engenheiros de tráfego, ao que orienta o Principio do PIEV, iniciais de Percepção, Inteligência , Emoção e Volição, que comandam o procedimento dos motoristas e pedestres. A falta de concentração em obedecer, imediatamente, às aberturas de sinal é uma das causas de retardamento do fluxo de tráfego.
O email que recebi, e repassei à CET-Rio, trata-se de um excelente desenho animado americano, muito bem comentado, explicando como o comportamento do motorista atrapalha o escoamento, num sistema perfeitamente coordenado. Infelizmente, não se aplica este comentário ao nosso trânsito, aqui do Rio, uma vez que até hoje não se tem um sinalização semafórica coordenada em “Ondas Verdes’, ou seja, a abertura dos semáforos, ao longo de uma via rápida não é sucessivamente, como deveria ser, a fim condicionar o motorista á “velocidade ótima” para o escoamento, mas sim em blocos de cinco a sete cruzamentos, num incentivo errôneo ao favorecimento da individualidade, prejudicando o rendimento da malha viária, fator que o desenho animado reprova e demonstra o porquê.
Aliás, já no excelente livro “Traffic.Why we drive the way we do”, publicado em 2008, (Por que nós dirigimos da maneira como fazemos), de autoria de Tom Vandebilt, em seu capítulo “Why ants don’t get into traffic jams (And humans do): On cooperation as a cure for congestion”(Por que as formigas não se envolvem em congestionamentos(e os humanos se comprometem. Na cooperação como cura para os congestionamentos) aborda a importância da mesma. Observando o deslocamentos das formigas, no seu vai e vem, a fim de coletar alimentação, principalmente para a “Rainha’, organizam-se de maneira perfeita do seu fluxo interrupto de tráfego. No exemplo citado, enfocando um grande formigueiro no Panamá, pôde-se observar que a coluna de volta, com carga, portanto mais volumosa, regressava pelo meio, e as duas que saíam o faziam pelas laterais, em prefeita harmonia e ritmo, sem parar a sua marcha regular. E, note-se, eram milhares de formigas...
Estou “rouco” de tanto escrever a este respeito, desde 1968, quando em Tel Aviv, em entrevista com o maior especialista de trânsito que conheci, engenheiro Kaljuski, Diretor de Engenharia da cidade e inventor do sistema de “Onda Verde", apresentou-me a ela, explicando–me ter sido levado a este sistema a fim de aumentar a capacidade viária da cidade, planejada pelos ingleses, com apenas 10% de espaço viário quando, urbanisticamente, deveria ser 30%.
Nas oportunidades em que dirigi o trânsito, quer no Rio ou em consultoria em São Paulo, jamais fui ouvido ou tive recursos para instala-la. Somente em 1973, como consultor da Ericsson, conseguimos, derrotando a poderosa Siemens, em concorrência pública para sinalização da W3 em Brasília, o primeiro sistema semafórico corretamente coordenado.
O tráfego deve se deslocar em blocos (platoons), a fim de se ter o máximo aproveitamento da via e, na velocidade em que apresenta o seu maior rendimento, segundo um folheto de um estudo da Siemens de 1968, em torno de 60 km (o que acontece na Avenida das Américas é um exemplo típico de como não deve ser a coordenação). Esta falha de nossos administradores em parte inocenta a cultura dos nossos motoristas, vítimas da nossa coordenação errada da sinalização semafórica, na qual pega mais sinais abertos o que corre mais, num incentivo nocivo ao individualismo.
A coordenação correta é capaz de corrigir o que o desenho animado chama de “cruzamento fantasma”, que é a travessia indevida de algum pedestre ou animal, com o sinal fechado para ele, fato comum em nossa cidade. Sem uma coordenação correta, ficamos a dever aos usuários o escoamento ideal ao qual têm direito.
Considerando o título da matéria do email, somos culpados em apenas talvez 30% do congestionamentos que sofremos. O resto deve ser debitado ao mau gerenciamento da circulação viária.
