Situação inaceitável

Por Celso Franco

Em excelente matéria publicada na grande mídia, em página inteira, com o título; “Trânsito parado faz o Rio perder R$ 35 bi ao ano”, alerta-nos para o custo da falta de mobilidade urbana, acrescida ao fato do desconforto desumano  dos transportes públicos, fruto ainda do uso da terra, no que concerne ao local de moradia e o local de trabalho. Muito se deve a este problema. À omissão do Poder Federal, em ter um controle urbanístico do uso de terra quando criaram o Ministério das Cidades. Julguei que estavam criando o Ministério do Planejamento Urbano, como fizeram para o controle da economia, criando o Ministério do Planejamento e, pelo que vejo criaram um BNH Gigantesco, mero distribuidor de casas e de infraestrutura de saneamento. Pior ainda. Com honrosas exceções, nomearam como seus titulares políticos neófitos no assunto urbanismo. Tive a demonstração clara desta nossa ignorância quando, em 1977, num seminário em Berlim tratando do trânsito nas Megalópoles, ficou patente o nosso desconhecimento sobre o assunto, controle da migração urbana. Éramos sete competentes técnicos brasileiros de vários setores do trânsito urbano...

O legendário Diretor de Trânsito Geraldo de Menezes Cortes, introdutor da preponderância da engenharia de tráfego no Detran, até então somente ou principalmente enfatizando o policiamento, costumava definir a  sua ação com a seguinte frase: “Os congestionamentos fortuitos, não posso evitá-los por não dispor de efetivo policial habilitado, capaz de fazê-lo no entanto os permanentes, tenho o dever de resolve-los”. Isto era o lema do responsável por nossa mobilidade no final da década de 40 do século que passou... E hoje, qual é  o lema? Costumo escrever, copiando a opinião da Phillips holandesa, que a engenharia de tráfego é a “ciência esquecida”. Eu ,exagerando, diria, é  a “ciência ignorada” e, de certa forma, mal ensinada, desde a morte do notável engenheiro de tráfego, professor Gerardo Penna Firme, que a exercia baseado nas regras do urbanismo, nas leis da hidráulica e na filosofia de Sir Alker Tripp e Sir Collin Buchanan. Quanto a estes últimos, autênticos filósofos do trânsito, não sei se a atual geração os conhece.

A reportagem que me inspirou mais um artigo de protesto em nome, não somente meu, mas dos colegas que exerceram a responsabilidade pela mobilidade urbana e, de certa forma têm o seu passado agredido, faz um alerta muito sério, numa época em que a corrupção corroí os recursos públicos. Assistimos, por exemplo, ao estrangulamento de uma das pistas da Avenida Brasil, a fim se realizarem obras para o VLT, que não irá retirar automóveis mas melhorar o conforto dos passageiros de ônibus. Foi aceita sem que nada se fizesse para minorar este mal, com duração prevista de um ano. Basta aplicar uma regra básica da hidráulica que tudo se resolveria...

Quanto à mobilidade urbana que nos coloca, como já escrevi em artigo anterior, “muito mal na foto”, segundo pesquisa da empresa holandesa TOM TOM, é facilmente resolvida pela implantação do Sistema URV, ou seja  o Uso Racionado das Vias, como se faz sempre que a oferta é inferior à procura. Terminaria com a atual “queda de braço” entre o Secretário de Transportes e a Rio-Ônibus pelo aumento das tarifas, previsto em contrato, uma vez que a renda do URV para a circulação racionada, gera recursos PARA TORNAR GRATUITO O TRANSPORTE PÚBLICO DE ÔNIBUS. Só esta medida o consagraria.

No fundo é aquela velha frase do autor inglês C. K. Chesterton, em seu livro clássico “The Scandal  of  Father Brown”  que sempre repito: “Não me preocupa os que não enxergam  o solução. O que me preocupa são os que não enxergam o problema, daí não encontrarem a solução”. Não se encontra a solução para as dificuldades do trânsito, até para uma política realista de transporte, sem pesquisa. Ela é o laboratório que leva o “médico” ao diagnóstico correto. O mais é mero blá,blá, blá.

Ainda não tenho no meu currículo a consultoria na minha cidade, tendo inclusive a exercido em São Paulo, durante os anos 1973 e 74, quando em 1975, fiz a tolice de voltar ao DETRAN, esquecendo-me de que “ciúme de homem é pior do que de mulher”. Vou tentar quebrar este tabu procurando o atual competente secretário de Transportes, engenheiro Fernando Mac Dowell, meu amigo de longa data e a quem desejo que passe à história como um autêntico revolucionário no trânsito do Rio, capaz de livrá-lo da incômoda e, como disse no título, posição inaceitável de mobilidade urbana.