O direito de amar

Por Siro Darlan

Muito oportunamente estão em cartaz nos cinemas duas lindas histórias de amor entre duas mulheres, uma delas passada em Nova York dos anos 50. Em meio a atos de homofobia e um número elevado de gays que ainda são vítimas de violência, recomendo uma reflexão para esse tema tão importante para a pacificação de nossa sociedade tão marcada pela violência. “Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca”, essa frase escrita por Clarice Lispector está mais que atual e reforça nossa necessidade de respeitar a todos os que amam e qualquer forma de amor. Tudo que precisamos e não podemos abrir mão é de amor.

O tema não é novo, mas Santo Agostinho, já no século IV abordava essa questão sem a hipocrisia que persiste até hoje quando trata da questão sexual: “Talvez pareça indecente nos estendermos sobre esse tema (relação sexual). Contudo, quem somos nós, comparados à santidade de Paulo? Com devota humildade, com palavras de cura e com o remédio de Deus, Paulo penetrou nos quartos humanos”. Mais adiante, em um de seus sermões leciona para os padres e bispos da atualidade, antecipando-se aos braços abertos do Papa Francisco, afirmava:” Todos se assombram ao ver a raça humana inteira convergir para o Crucificado. De imperadores a mendigos andrajosos... Nenhum grupo etário é ignorado, nenhum estilo de vida, nenhuma tradição erudita... já vieram pessoas de todas as classes, de todos os níveis de renda e toda forma de riqueza. É mais do que hora de que todo e qualquer um venha para o interior (da Igreja)”.

Esse ensinamento inclusivo daquele que é considerado o mais sábio dos santos, ainda nos primórdios do cristianismo, muito próximo dos intérpretes originais das Escrituras, é um sinal de que precisamos entender que amar alguém, independente do sexo, não é errado, não há pecado algum. Tudo que as pessoas que amam desejam é expandir esse sentimento tão nobre que se tornou o maior de todos os mandamentos. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Todo aquele que ama deseja ser correspondido e o amor tudo suporta, menos a rejeição desse amor, que precisa ser correspondido e respeitado.

Aproveitemos esses episódios culturais, através do cinema e do teatro para aperfeiçoar nossas relações humanas, respeitando todas as formas de amor.

desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.